Se a obra de ampliação do hospital não avançar com carácter de urgência, a unidade corre o risco de perder especialidades e de se gerar caos nos serviços. Os médicos também defendem alterações e estão a pressionar as tutelas e administração hospitalar, que está sob fogo cerrado.
A totalidade de chefes de serviços e departamentos clínicos do Centro Hospitalar de Setúbal (CHS) assinaram um documento debatido ontem de manhã para pressionar a tutela a avançar com a obra de ampliação do hospital, indicando reformulações ao projeto que não são do agrado do Conselho de Administração, presidido por Manuel Santos Roque.
A posição dos médicos, secundada por outras entidades externas que fazem parte do Conselho Consultivo do CHS, é muito clara: “É preciso garantir no edificado mais dois pisos, para que não se cometam os erros da última ampliação, que levou o hospital a uma situação de rutura, como provou a pandemia”, explicou José Poças, diretor do Serviço de Infecciologia.
Mas o Semmais sabe que a administração do hospital, que não quis prestar declarações, entende que esta posição de força pode ser mal vista pelo Governo e criar “um novo obstáculo” ao avanço da obra que diz estar garantida pela tutela desde 2017.
Segundo o documento em discussão, elaborado com a chancela da Ordem dos Médicos, a unidade hospitalar, que tem “estruturas obsoletas e reduzidas” corre o risco de ter que encerrar especialidades e perder a capacidade formativa de jovens clínicos, conquistas dos últimos anos. O próprio Bastonário, Miguel Guimarães, considera que as lacunas existentes “comprometem a capacidade de resposta desta unidade de referência na zona sul do país, e elenca problemas no serviço de urgências, nos meios complementares de diagnóstico, bem como a criação de condições atrativas para garantir a manutenção dos atuais e novos profissionais.
São inúmeras as falhas que podem conduzir a unidade a uma letargia de funcionamento, como por exemplo, o facto de a Anatomia Patológica estar a funcionar apenas com uma especialista, de 60 anos de idade, reconhecendo-se a falta de pelo menos mais quatro assistentes hospitalares, “por forma a conseguir assegurar a sua continuidade e idoneidade formativa”.
Outro caso apontado é da ginecologia/obstetrícia que deveria estar a funcionar com um quadro de 23 especialistas e conta apenas com uma dezena, oito dos quais com idades entre os 56 e 66 anos de idade. E, mais grave ainda, o serviço de oncologia, que funciona apenas com um único médico, após terem saído cinco colegas ao longo dos últimos 18 meses. Já a situação no serviço de internamento está em rutura plena, com taxas de ocupação de 177,5%. Sem esquecer, aduz o documento, que os cuidados intensivos mantêm uma estrutura física idêntica e a mesma capacidade de internamento, com sete camas, desde que foi inaugurado em 1985, muito aquém do rácio de camas críticas recomendado.
Não deixar que ocorram os mesmos erros do passado
O problema é que os médicos não querem mais demoras na ampliação do hospital, numa obra inicialmente estimada em cerca de 17 milhões de euros. Mas não a todo o custo. “Se o projeto não prevê algumas alterações, são erros que permanecem para além dos mandatos do atual Conselho de Administração. E não podemos deixar que estejam a impedir o hospital de crescer. Quem administra o hospital tem todos os elementos necessários para que não seja criado um erro em cima de outro erro”, afirma José Poças, ex-coordenador da Comissão de Crise Covid-19 do CHS.
Para Eugénio Fonseca, presidente da Cáritas, que lidera o Conselho Consultivo, e que tem estado a “fazer pontes”, uma primeira prioridade é a luta para a requalificação administrativa do hospital, passando da letra C para a letra D, a que corresponde uma atribuição de meios financeiros muito mais condicente com a dimensão e qualidade do CHS. “Estamos a falar de uma correspondência geográfica acima das 250 mil pessoas, de Setúbal, Palmela e Sesimbra, a que acresce uma drenagem de 20 a 30 por cento de doentes oriundos do Litoral Alentejano”, lembra o responsável.
Segundo a mesma fonte, para além desta “categorização hospitalar”, a unidade não vai subsistir sem “uma grande ampliação, perda de valências e de quadros médicos”. “Antes da pandemia pedi uma audiência à senhora ministra, e vou agora insistir”, disse ao Semmais.
Os clínicos que “chegaram ao fim da linha”, contestam a administração por não estar ao lado dos profissionais e de ser “um braço político do Governo”. “Não se trata de uma questão corporativa, mas há um divórcio entre a administração e os médicos, uma tensão latente. Já se perderam médicos por trocos e a motivação está em baixo”, garantiram vários reputados médicos do S. Bernardo, contatados pelo Semmais.
O facto de a administração do CHS não ter querido assinar o documento da Ordem dos Médicos, por considerar que as propostas de alteração ao projeto de ampliação podiam deitar a perder o financiamento já aprovado pelo Governo, caiu muito mal junto dos diretores de serviço e de departamento da unidade. Agora prometem endurecer a luta.
CAIXA
Ampliação ‘pendente’ da venda do Outão
A obra de ampliação em causa, cujo financiamento chegou a estar assegurado pelo Orçamento de Estado, está pendente da venda do Hospital do Outão para fins de turismo de Saúde, ao abrigo do programa Revive. O negócio estará a ser tratado pela Direção-Geral do Tesouro e pela Turismo de Portugal. A venda do Outão, implica a transferência da Ortopedia para o S. Bernardo, o que é bem visto pelos médicos, desde que sejam asseguradas as condições físicas e de estruturação de serviços. “Da forma como está pensado, é mais um peso para o caos que aí vem”, confidenciou um clínico com experiência em gestão hospitalar. Por outro lado, a expansão do hospital vai esbarrar também em terrenos contíguos ofertados ao S. Bernardo, e ocupados por privados já com direitos adquiridos por ‘usucapião’.






