É a seally season, estúpido!

A marca trágica que os media imprimiram ao longo dos tempos, tem levado profissionais e teóricos a refletir sobre o que significam as temáticas reinantes, os ciclos informativos e uma parangona assumida internacionalmente – good news, no news. Seguindo a linha de raciocínio de que uma boa notícia, quase nem se configura para obter o estatuto de notícia, é afirmado o primado da catástrofe face a uma eventual tranquilidade informativa. Emergem dois pontos neste pensamento: quem produz a informação e quem a recebe. Ou seja, quais os pressupostos que formatam a mentalidade jornalística para considerar o que é notícia, e quais as expetativas por parte do público, recetivo a um pendor negativista sobre o mundo, eventualmente mais recetivo ao acidente, à morte e ao escândalo.

Da anterior expressão, conjugamos uma sua parente – bad news, always good news. E, desta forma, se legitima que a mentalidade jornalística é altamente suscetível ao que fraciona e divide o mundo; ao que alarma e alerta; quantas vezes, ao que social, política e economicamente se apresenta como aberrante. Convoca-se a máxima sobre o que trespassa o espectador no momento em que o acrobata se lança em voo na tenda de circo: deseja-lhe sorte e sucesso ou, no fundo, no fundo, anseia que a perfeição do gesto repetido, possa traduzir-se no trágico e monumental acidente? No mais fundo de nós, há um homem pacífico que anseia por uma calamidade, fixa os olhos numa desgraça, para, eventualmente se arrepiar com a sua dúbia condição e procurar prevalecer os mais nobres valores da humanidade.

Os ciclos da informação, são eles próprios, reveladores de que, de entre o bom e o mau que é feito o cardápio informativo, há momentos em que, fruto do momento, diminui substancialmente o caudal de notícias. A seally season, momento de estio em que os vários poderes ficam reduzidos a serviços mínimos, reduzem-se na mesma proporção a probabilidade de ocorrências várias: a ausência de atividade política partidária e parlamentar; o período das férias judiciais; a competição desportiva em modo pausa; a suspensão de serviços, como a educação, definidos em calendários que obrigam a paragens obrigatórias, são exemplos de que os atores com particular expressão nos media, por momentos, se ausentam de cena.

Por força das circunstâncias, os que têm lugar cativo nas manchetes, sucedem a um menú informativo que, invariavelmente, ano após ano, repete ingredientes aguardados: a temperatura que sobe; os destinos de férias; a crise ciclónica que irrompe sem aviso prévio; os fogos que lavram impiedosamente; o assinalável acidente ferroviário; o internamento ou morte de figuras públicas. Não fora o período de pandemia e, a esta atualidade pré-configurada, juntar-se-iam os inúmeros festivais de verão, as feiras gastronómicas, festas e romarias.

Estimulante seria que, à agenda anualmente imposta, surgisse no labor jornalístico a oportunidade de dar forma a temas de segundo plano, à investigação que se tornou uma raridade, a uma agenda de assuntos pertinentes, pedagógicos, com relevância social e que, acima de tudo, observe a vida das pessoas.

Ciclicamente, surge uma estranha sensação de déjà vu, género, subitamente no verão passado, volta a acontecer, justamente, no verão que agora nos ilumina. E assim, por entre uma menor atenção às notícias que passam, e porque as notícias se vestem de requentados temas, volta a afirmar-se o eterno ciclo das informações fruta da época, Por que à season nos referimos, e porque de seally, igualmente, todos temos um pouco!

Ricardo Nunes
Professor

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