IN MEMORIAM

Os noticiários do fim de tarde de 7 de abril trouxeram-nos a funesta notícia da morte de um cidadão que todos conheciam e, atrevo-me a dizer, todos respeitavam.

Para mim era não apenas o político conhecido e respeitado, mas ainda o amigo solidário de muitas lutas e combates pelo progresso e desenvolvimento do país e, também, deste distrito de Setúbal.

Jorge Coelho era um dos dirigentes mais requisitados e queridos do PS e um dos homens mais próximos do Secretário geral e então primeiro Ministro António Guterres. O convite para encabeçar a lista do PS ás legislativas de 99 era um anseio da maioria, para não dizer, de todos os dirigentes distritais.

O convite que lhe dirigi, prontamente aceite, tinha dois objetivos essenciais.

Continuar o impulso de desenvolvimento que o distrito havia iniciado e, ainda, neste contexto, conseguir reabrir o debate sobre a localização do novo Aeroporto de Lisboa cuja localização no distrito dispensaria outros impulsos para o desenvolvimento do distrito e, por arrastamento, com a decisão da construção do Alqueva de todo o Alentejo.

Sabia que ele iria desempenhar funções decisivas no futuro governo e, portanto, além da sua amizade e ajuda pretendia envolve-lo na afirmação do distrito como área de excelência do país.

E foi com a alegria e o entusiasmo que sempre lhe foram característicos que realizámos uma magnífica campanha eleitoral, iniciada com um comício, no pavilhão do Naval, na véspera do seu aniversário.

Após a formação do governo, onde ocupou a pasta das Obras Públicas, esteve em momentos decisivos de lançamento de obras nevrálgicas para a afirmação de Setúbal no contexto nacional.

Para não ser exaustivo cito apenas dois ou três exemplos.

O lançamento do concurso para construção da segunda fase do troço ferroviário Coina/Setúbal. Aqui esteve com a Comissária Europeia, sua amiga pessoal e admiradora confessa, Loyola Palácios, apesar de ser de família política distinta para preparar o imprescindível financiamento comunitário para a execução da obra.

Mas também a expansão do Porto de Sines com o lançamento do terminal GPL e do Porto de Setúbal cuja expansão estava ameaçado com a famosa “Side Letter” anexa ao acordo celebrado entre o Estado Português e a PSA para a construção do terminal de contentores de Sines.

O lançamento do estudo da terceira travessia rodoferroviária essencial à construção de uma cidade de um rio com duas margens que avançam na senda do desenvolvimento de mãos dadas e com a ambição de um futuro sustentável. Futuro este que agora parece estar esquecido e do qual nunca mais se ouviu falar aos diferentes responsáveis políticos.

Apenas não consegui convencê-lo da inevitabilidade da reapreciação de localização da futura estrutura aeroportuária de Lisboa.

Percebi e respeito as razões de não querer reabrir um dossier que sempre considerei não ter sido resolvido da melhor forma para o interesse nacional. Quando, mais tarde, a questão veio a ser recolocada e o confrontei com a utilidade da antecipação do debate a resposta que me deu não me convenceu inteiramente. Não imaginava poder optar pela solução do Campo de Tiro de Alcochete e não ser fácil ao poder político impor essa decisão aos militares.

É um tema a que espero voltar em breve, agora, que a perda de um amigo e um companheiro de tantos combates me obrigou a sair da letargia a vir-lhe prestar a minha sincera e sentida homenagem.

E nem sequer quero recordar momentos pessoais, duros uns agradáveis outros, que tive o privilégio de com ele partilhar. Toco apenas no telefonema que lhe fiz por volta das duas da manhã na noite da fatídica queda da ponte de Entre-os-Rios onde, em vão, o tentava dissuadir da demissão por nenhuma responsabilidade ter tido no sucedido.

Jorge partiu sem um aviso e com uma falta que me é exclusivamente imputável. Não visitei a menina dos seus olhos, a queijaria que abriu na sua/nossa terra.

Mas tive o privilégio de ter realizado o último almoço com ele no local onde celebrou o seu casamento com a sua mulher Cecília a quem neste momento presto homenagem e saúdo tal como a sua filha Maria João, genro e netos.

Até sempre Jorge, vou sentir a tua falta, agora, que nas palavras de um poeta teu amigo ” partiste sem nos avisar”.

Alberto Antunes