Companhia de Ópera de Setúbal estreia “A Nave dos Diabos”

Com cerca de um ano e meio, a Companhia de Ópera de Setúbal avança para a terceira produção, com assinatura do maestro Jorge Salgueiro. O palco é o Fórum Municipal Luísa Todi.

Entre prenúncios de tempestade, o capitão dá ordens bizarras. Com um líder incompetente a nave perde-se na imensidão dos mares. O capitão culpa os marinheiros pela desgraça em que estão metidos. O tempo passa e são tomados pela fome. O capitão propõe, então, um sorteio para sacrificar um corpo aos estômagos dos restantes.

´É este o enredo de “A Nave dos Diabos”, a terceira produção da Companhia de Ópera de Setúbal que estreou ontem, pelas 21h00, no Fórum Municipal Luísa Todi, em Setúbal, repetindo a apresentação no dia seguinte à mesma hora. Esta obra em um ato e treze cenas, com a duração de 70 minutos, conta com conceção e direção artística de Jorge Salgueiro, corporalidade de Iolanda Rodrigues, e produção da Associação Setúbal Voz que, este ano, recebe um apoio de doze mil euros do município sadino para criar produções regulares.

O baixo João Oliveira; os barítonos Néu Silva, Frederico Paes, Diogo Oliveira e Paulo Reis Simões; as sopranos Carina Matias Ferreira, Célia Nascimento, Juliana Telmo e Miká Nunes; além da participação do Coro Setúbal Voz, são o elenco escolhido para este espetáculo sobre “o poder e a liberdade que nos lembra que ‘não há machado que corte a raíz ao pensamento’ e que um cardume pode devorar um tubarão se disso tomar consciência”, sublinha Jorge Salgueiro.

 

Ambição do grupo passa por ter uma orquestra no futuro

Segundo o maestro trata-se de uma ópera “muito especial”, devido à montagem cénica, que pretende transmitir “esperança” ao público nestes tempos de pandemia. Com um investimento de 1 500 euros, Jorge Salgueiro revela que “A Nave dos Diabos” é espetáculo para custar nove mil euros. “Estamos a tentar apoios para algumas necessidades do espetáculo porque a Companhia de Ópera de Setúbal ainda não tem financiamento regular. Temos feito espetáculos quase a custo zero e tendo como base apenas a nossa imaginação e dedicação”. Além disso, considera que tem sido “fundamental” a participação do Coro Setúbal Voz nestas produções, “dando-lhes dimensão sinfónica e alargando as possibilidades de expressão artística”. No futuro, Jorge Salgueiro confessa ao Semmais que gostaria de poder ter “uma orquestra e capacidade para criação profissional de figurinos e cenários”.

Fundada a 4 de julho do ano passado, por iniciativa de Jorge Salgueiro, em resultado do trabalho desenvolvido no Ateliê de Ópera de Setúbal e no Coro Setúbal Voz, a Companhia de Ópera de Setúbal já levou à cena, em 2020, as produções “Os Fantasmas de Luísa Todi” e “Vingança, Ópera do Tempo da Todi e da Madonna”.  “Tentamos produzir dois espetáculos por ano e reavivar a tradição operática em Setúbal, onde nasceu a maior cantora lírica de todos os tempos, Luísa Todi. As nossas obras procuram uma ligação entre a tradição, o repertório histórico e a contemporaneidade, com base, essencialmente, em originais”, refere Jorge Salgueiro, que faz um balanço “muito positivo” de um projeto que está em fase de “construção e solidez”.