Orcas fazem perigar embarcações ao largo de Sesimbra

Pescadores querem nova legislação que lhes permita aumentar capturas de algumas espécies e evitar multas resultantes, por exemplo, da pesca de tubarões que caem nos anzóis destinados ao peixe-espada preto.

A costa portuguesa em geral e a zona de Sesimbra em particular está, este ano, pejada de predadores. Orcas, tubarões, lixas a atuns perseguem cardumes para se alimentarem e, no caso das primeiras, até já atacaram embarcações. Os pescadores que capturam estas espécies arriscam coimas de muitos milhares de euros. Muitos tentam desfazer-se dos exemplares no mar, situação que é proibida, tal como a venda nas lotas. A solução, dizem, passa pela intervenção do Estado junto das autoridades comunitárias, a fim destas aumentarem a cota de pesca de determinadas espécies.

“Ninguém em Portugal tem a noção do que se passa atualmente a cerca de três ou quatro milhas da costa de Sesimbra. Há uma verdadeira invasão de orcas que, atraídas pelas hélices, atacam as embarcações”, disse ao Semmais o diretor da Sesibal – Cooperativa de Pesca de Setúbal, Sesimbra e Sines, Ricardo Santos.

O mesmo responsável contou que, “há cerca de três meses uma embarcação com quatro homens, e que se encontrava a cerca de quatro horas de Sesimbra, foi obrigada a pedir ajuda a duas outras embarcações, depois de ter ficado com o leme destruído devido a ataques de orcas. Poderiam ter afundado, caso não conseguissem encalhar de emergência. Mas este ataque não foi o único. Em Sesimbra, desde de abril, já temos conhecimento de três casos e no Algarve registou-se um outro”.

Ricardo Santos diz que o número de orcas ao largo da costa nacional é o mais elevado dos últimos 30 anos, o mesmo acontecendo igualmente com outras espécies cuja captura é proibida. “Ao largo de Sesimbra a frota que se dedica ao peixe-espada preto, constituída por dez embarcações e responsável por mais de 200 postos de trabalho, é todos os dias confrontada com capturas de tubarões, as quais são proibidas. Acontece que estas capturas não são dirigidas à espécie. Ocorrem porque os tubarões vão comer os iscos colocados nos anzóis para o peixe-espada. Quando são içados para bordo já estão mortos ou quase”, afirma.

 

Pescadores arriscam livrar-se das espécies em pleno mar

Como é proibido descarregar esta espécie nas lotas, assim como as lixas, peixe de profundidade que também cai nos aparelhos do peixe-espada, ou até o atum, cujo limite de capturas já está cumprido e não pode ser ultrapassado, os pescadores tentam, muitas vezes, livrar-se dos exemplares em pleno mar. “É uma ação arriscada, pois a OCDE proíbe-a. Por outro lado, uma descarga em terra dá direito a uma coima que pode oscilar entre os 12 e 25 mil euros”, acrescenta o diretor da Sesibal. “Há um grande desperdício originado pela ausência de medidas que alterem as cotas de captura de determinadas espécies. Por vezes, há atuns de 200 quilos que têm de ser largados ao mar, quase sem oxigénio e com poucas ou nenhumas possibilidades de sobreviverem”, acrescenta.

“Não sei quais as quantidades de apreensões de capturas de espécies não dirigidas (como tubarões ou lixas). O que sei é que, no caso português, ninguém pesca tubarão para vender as suas barbatanas e óleos, como fazem outros países, para os mercados chinês e japonês”, diz Ricardo Santos.

Recentemente uma embarcação que descarregava em Sesimbra acabou por ser autuada por, na sua carga, transportar tubarões de profundidade. Este pescado, assim como outro que esteja interdito, mas que seja comestível, conforme explicou ao Semmais o presidente da Docapesca, Sérgio Faias, pode ser entregue a IPSS da região, transformado em farinha ou destruído. A decisão cabe sempre aos responsáveis da Direção Geral dos Recursos Naturais, Segurança e Serviços Marítimos, que é quem tem o poder final sobre as ações de fiscalização exercidas pelas unidades de controlo costeiro da GNR.

O Semmais tentou saber junto deste organismo estatal quais as quantias anuais de pescado apreendido na sequência de capturas não dirigidas, não tendo sido possível obter qualquer resposta.