Manuel Martins, um precursor da Sinodalidade

Escrevo a propósito da partida deste mundo, há 4 anos, completados no passado dia 24, do Bispo Manuel Martins. Há seres humanos que não deveriam morrer. Não por eles, mas por nós. Contrariamente ao que é vulgar dizer-se, são mesmo insubstituíveis. A propósito, evoco também a memória de um outro que nos deixou no passado dia 2 de setembro. O país não deu por isso, tal era a sua modéstia. Foi o meu antecessor na presidência da Cáritas Portuguesa. Um dos mais íntegros portugueses e, como católico, foi um militante que sempre dignificou a Igreja Católica. Por reconhecer a grandeza ética e intelectual de Acácio Catarino resisti, durante dois anos, a substituí-lo. Diz-se que esteve na Cáritas Portuguesa 17 anos. Não é verdade; pelo menos esteve 38, porque fiz questão de lhe pedir que continuasse a colaboração de que eu precisava, e muito profícua me foi, até eu também cessar funções.

Esta referência não é um inciso despropositado, pois o Bispo Manuel Martins e Acácio Catarino estimavam-se mutuamente, não só por terem cooperado um com um outro, mas por terem o mesmo ideal de Igreja que tinha o seu eixo num modelo que foi consolidado, teoricamente, pelo Concílio Vaticano II, onde todos os membros se sentissem como um só povo, cada um com a sua missão, mas sem que isso contribuísse para criar diferenças de estatutos socio-eclesiais.

Eles não tiveram a alegria de viver numa Igreja assim. Mas partiram com uma maior esperança de que lá se haveria de chegar, se o caminho traçado, até agora, por Francisco, não sofrer recuos. Mais uma etapa deste caminho está em marcha: o Papa reafirmou o seu anseio por uma Igreja sinodal. Eu interpreto o desejo do Bispo de Roma, não tanto como a vontade da Igreja estar em estado de sinodalidade, mas ser mesmo sinodal. Para os leitores que possam não estar tão familiarizados com este termo, quer dizer que o Papa Francisco deseja uma Igreja mais, visivelmente, unida. O próprio conceito de sínodo aponta para isso.  A palavra é constituída pelos termos  “sun” (juntos) e “odos” (via, caminho) ou seja, “caminhar juntos”.

Quando chegou à Diocese de Setúbal, Manuel Martins procurou traçar esta via, criando logo um órgão, verdadeiramente, colegial ao qual chamou de Assembleia Diocesana. Espaço onde, em termos de estar e de intervir, o bispo, os padres e os leigos não se distinguiam.

Quando iniciou esta forma de participação foi, violentamente, criticado dentro da Diocese (eu fui um dos críticos) e por membros de outras, sobretudo da hierarquia. Mesmo da alta hierarquia. Mas nunca desistiu. Agora, em todo o mundo, se pede que a Igreja tenha esta prática. Sinal de que o primeiro Bispo de Setúbal, também nesta atuação, não estava errado, mas desperto aos apelos do Espírito Divino que anima a Igreja.

Os que o conheceram, verdadeiramente, sabem que, junto de Deus, está feliz por mais esta ousadia de Francisco. Sabemos que é um dos muitos que, agora na vida onde a comunhão fraterna não tem empecilhos, está a rogar a Deus pela transformação da Igreja. Pessoalmente, peço-lhe que reze muito por mim, pois, estou algo cético quanto a essa desejada “metanoia”- mudança de espírito, mudança de atitude.

Eugénio Fonseca
Presidente da Confederação Portuguesa do Voluntariado