Dignidade.

A dignidade é provavelmente o que resta quando tudo o mais se perde. Por isso a dignidade não é nem nunca será um detalhe. Antes o centro do que deveria ser a visão para o nosso país nos anos que vêm. Em particular para quem aqui vive e que não pode dispensar a dignidade.

Tudo a propósito do salário mínimo nacional e do debate em torno do seu valor. Até algumas opiniões o colocam como a razão primeira da atual crise política. Tirando o exagero da palavra crise: o país parece funcionar exatamente da mesma forma como sempre funcionou. Acrescentando a discussão e o debate que não se percebeu inteiramente. Aliás os partidos da esquerda parece terem um qualquer problema persistente com a comunicação.

O essencial, o que interessa realmente, parece ser que para uns 705 euros brutos, brutos e não o que realmente se recebe, é o máximo a que se pode chegar. Senão as empresas não aguentam e vem aí uma onda de desemprego. Nada do que é afirmado é justificado ou fundamentado, claro. Apenas e só o contexto e o tipo de argumento que, ano após ano, faz com que o valor do trabalho seja cada vez menor no rendimento das pessoas.

705 euros brutos é na verdade, neste país e neste tempo, muito pouco. Quem acha que é muito não deve ir às compras ou deve ter alguém que as faça por ele. Deve viver num mundo onde o preço é um detalhe e a sobrevivência apenas um conceito distante.

Na minha opinião estamos a construir um país onde as pequeníssimas vitórias são mais importantes do que as grandes derrotas. 705 euros (brutos, não esqueçam!) é uma pequeníssima vitória. Que leva a uma indignidade. Que leva, por sua vez, a que as melhores e os melhores de nós emigrem e resolvam a sua vida onde a dignidade é mais real.

Filhas e filhos, o futuro de um país, que escolhe partir. Não exatamente, muitas e muitos, para ter uma carreira internacional, até porque crescentemente uma carreira internacional se pode ter em qualquer lugar, mas para encontrar a dignidade.

Depois de milhões de euros (sim milhões!) gastos no sistema educativo português, o que estamos, realmente a fazer, é a investir no sistema educativo do Reino Unido, da Alemanha, da Holanda, do Luxemburgo e de quem tenha uma ideia mais clara de dignidade.

Na prática 705 euros é muito mas milhões desperdiçados já não é.

Para se ter uma ideia da validade do argumento sobre o incomportável valor do salário mínimo tenha-se em consideração que este ano (2021) o Governo devolveu (?) às empresas um valor correspondente a 84% do aumento do encargo com contribuições para a Segurança Social por causa, exatamente, do aumento do salário mínimo nacional. Uma decisão cujo custo foi estimado inicialmente pelo Governo em 60 milhões de euros, mas que acabou por ficar em pouco mais de metade.

Até as previsões sobre a catástrofe anunciada do aumento do salário mínimo ficaram pela metade (33 milhões de euros em vez de 60 milhões de euros).

Por isso o essencial é a dignidade.

Queremos as e os melhores e mais qualificados ou não?

Digam-me qual o valor do salário mínimo, e do salário médio naturalmente, e dir-vos-ei a resposta.

Não, 705 euros não é muito.

É apenas o muito que pelo pouco que é tira o futuro a este país.

Turismo Semmais

Jorge Humberto

Colaborador