A Ucrânia: condenação sem relativismos

Na Assembleia Municipal de Palmela que se realizou no dia 24 de fevereiro foram apresentadas duas moções de solidariedade para com o povo ucraniano, neste momento em que a Ucrânia é vítima de uma invasão bárbara, injustificada e impensável por parte do governo liderado por Putin. As duas moções, apresentadas pelo Partido Socialista e pelo PSD, foram aprovadas com a abstenção da bancada do PCP. Uma abstenção que tentaram justificar com o relativismo e a memória de outros ataques e invasões, repetindo o mantra de que não há imperialismos bons nem maus, mas voltando – como tinha acontecido nessa mesma tarde na Assembleia da República – a ser incapazes de condenar com veemência a atuação de Putin. Acusa-se a NATO, a União Europeia, os Estados Unidos, mas a Rússia nunca é referida – na melhor das hipóteses, menciona-se a sua atuação como uma consequência dos feitos de outros.

Tento perceber o relativismo de fação e não consigo. Estamos de acordo. Não há imperialismos bons e maus. São todos maus. Então, condenem-se todos sem hesitar, em coerência com a condenação que o PCP já fez de outros ataques.

Não me esforço e não quero perceber a defesa camuflada do líder político que mais tem alimentado e financiado as extremas-direitas de todo o mundo.

Não há qualquer racional, nada faz sentido nesta posição do PCP. É o velho ódio aos Estados Unidos, sem capacidade de posicionamento perante a situação presente? É achar que se está a defender a Mãe Rússia, como se esta Rússia fosse a imagem da URSS?

Talvez não haja mesmo nada para perceber. Mas custa-me a falta de coragem exibida nos múltiplos comentários e lamentos. Perante a condenação que muitos fazemos da posição do PCP, militantes comunistas vitimizam-se, dizendo que a sua posição está a ser adulterada (não, não está. Não se lê em nenhum comunicado uma inequívoca condenação da Rússia); iludem-se, relativizando mensagens e relatos de ataques que ocorrem na Ucrânia (dando voz à máquina de propaganda russa). Se não condenam – e não o fazem – não enrolem. Se condenam, digam-no explicitamente e associem-se ao apoio à Ucrânia.

A democracia não é uma palavra para encher a boca. É a afirmação da dignidade dos direitos humanos de todos os povos. Putin abomina os valores democráticos ocidentais, persegue e prende manifestantes que clamam paz, limita direitos fundamentais por conservadorismo moral, alimenta-se da violência e tem um plano traçado há vários anos. Que Trump, Le Pen, Salvini ou Bolsonaro posem sorridentes em fotografias com Putin não surpreende. Que o PCP queira estar nesse retrato, relativizando o mal, ignorando crimes de guerra e dizendo que não há posição a tomar, porque tudo é igualmente mau, desilude e choca.

É importante lembrar que, em Palmela, não se votou nenhuma moção com uma análise profunda da situação mundial. Votou-se a solidariedade para com um povo que sofre uma invasão brutal e desproporcionada.

Às vezes ficar em cima do muro não é ser neutro. É virar as costas à democracia e à liberdade. Foi assim em Palmela, foi assim na Assembleia da República, foi assim o voto no Parlamento Europeu.

João Costa

Dirigente do PS