Pode Sesimbra ser uma Smart City?

Nas últimas duas décadas, o desenvolvimento das cidades e centros urbanos tem sido naturalmente influenciado pela evolução tecnológica e pela internet. A transição digital abre um novo horizonte de possibilidades, ainda que a ritmos diferentes mas, inegavelmente, a uma escala global.

Podemos definir Cidade Inteligente (Smart City) como um espaço urbano onde a tecnologia é utilizada com o objetivo de melhorar processos e serviços tradicionais, obtendo-se ganhos em eficiência, qualidade e sustentabilidade. Este conceito tem como pilar os sistemas de informação e comunicação, permitindo que as autoridades e entidades governamentais monitorizem e interajam ativamente com as infraestruturas do território em diversos âmbitos, tais como: a produção e gestão de energia, rede de abastecimento de água, saneamento básico, recolha de resíduos, gestão de espaço público, gestão de equipamentos escolares ou de saúde, segurança e/ou controlo de tráfego, entre outros.

Mas desenvolver o conceito de Smart City engloba muito mais que a determinação de um mapa de equipamentos ou um programa de investimentos. Na realidade, este caminho ainda agora começou: estamos a abraçar um novo paradigma.

A tecnologia permite potenciar as respostas ao cidadão, mitigar o impacto ambiental, entre outros desafios do século. Contudo, e ainda que esta aposta seja incontornável, a transição digital levanta também alguns desafios. Necessitamos de uma visão mais ampla, por exemplo, analisar qual o verdadeiro impacto desta transição nos nossos cidadãos – na educação, saúde, mobilidade, na forma como trabalhamos ou socializamos, por exemplo – perspetiva essa muito diferente do que apenas olhar para dados extraídos de sensores.

Sesimbra tem procurado, ao longo dos últimos anos, iniciar um percurso no sentido de um município mais sustentável, mais digital, mais adaptado aos desafios da sociedade da interatividade.

Em matéria de sustentabilidade ambiental e eficiência energética existem alguns equipamentos equipados com painéis fotovoltaicos e luzes LED, como é o caso da Piscina Municipal. Contudo, este esforço deverá ir mais além, não só, desde logo, na melhoria da eficiência energética dos edifícios municipais, mas também com uma política proativa de sensibilização de munícipes e empresas, como por exemplo  a instalação de programas municipais  de  financiamento ou incentivo a obras de melhoria da eficiência energética dos edifícios, aproveitando, por exemplo, o Plano Nacional Energia e Clima 2030 (PNEC 2030).

Na gestão de resíduos urbanos, o Município tem implementado programas de incentivo à reciclagem e recolha seletiva de resíduos como, por exemplo, os programas piloto de contentores individuais para “recolha porta a porta”. Estas medidas têm produzido resultados positivos, podendo evoluir para programas de gestão integrada de recolha que permita, entre outros aspetos, uma diferenciação da taxa de resíduos por agregado familiar ou uma maximização da eficiência na gestão da frota de resíduos e ser desenvolvido, também, para o conceito de recolha porta a porta de bioresíduos.

Em matéria de mobilidade suave, o Município tem desenvolvido recentemente alguns esforços para reforçar o investimento, como é exemplo da integração na Plataforma Humanizada de Conexão Territorial HUB 10 – um investimento de cerca de 975 mil euros na promoção de uma dinâmica de modalidade intermodal mais sustentável na região metropolitana de Lisboa, nomeadamente com a melhoria da ligação aos municípios de Palmela e do Barreiro e, mais concretamente, à Ferrovia.

Outro projeto de relevo é a participação no protocolo da AML de criação da Transportes Metropolitanos de Lisboa, concretizada através da Rede Carris Metropolitana, que resultará, já em 2022, num incremento de cerca de 40% nas carreiras urbanas no Município. Estes projetos deverão ser acompanhados por outras estratégias de promoção da mobilidade suave, desde logo o aumento da rede de ciclovia, permitindo a ligação não motorizada aos transportes públicos, assim como o incremento da oferta de parques de bicicletas e outros velocípedes elétricos e/ou regimes de bike sharing. O Fundo de Coesão da União Europeia assim como o Horizonte do Plano Portugal 2030 abrem boas perspetivas na implementação de programas comunitários nesta vertente, que devem ser acompanhados.

A internet e o 5G desempenharão um papel central nos centros urbanos do futuro. Sesimbra esteve na vanguarda das redes publicas de WIFI, através do recurso ao programa do Turismo de Portugal e da União Europeia Wifi4EU implementando WIFI gratuito para os munícipes na Marginal da Praia da Califórnia, em Santiago, no Mercado Municipal de Sesimbra e na Biblioteca Municipal. Este projeto será alargado, já no próximo ano, para outros três pontos do Município: Parque Augusto Pólvora, Parque da Vila da Quinta do Conde e Mercado Municipal da Quinta do Conde. Promovendo uma estratégia que pretende a interação do Município com os habitantes e visitantes do Concelho, o acesso rápido a informação pertinente e disponibilização de serviços úteis torna-se essencial. Com a evolução natural do 5G o nível de aproveitamento destas redes, disponibilização de dados, interatividade e leque de serviços poderá crescer exponencialmente, oferecendo uma melhor experiência de utilização e mais ferramentas ao Município.

Em suma, estamos ainda longe de ter em (ou “de fazer de Sesimbra  um”) Sesimbra um “Município Inteligente”, mas podemos afirmar que estamos, com passos progressivamente maiores, pelo caminho certo. Na realidade, quando falamos em smart cities, é preciso termos a noção que é algo que, na realidade, nunca iremos alcançar, uma vez que o próprio conceito também evolui. Se há 5 anos falávamos sobre a Internet of Thing (IoT), hoje a inteligência artificial é o novo campo de expansão. Estamos ainda no meio de uma revolução industrial, em que o grande desafio será qual o papel do cidadão, e já agora dos gestores locais, no meio de sensores, automações e 5G.

Miguel Fernandes