De regresso à Ovibeja

É já no próximo dia 21 que voltamos a ter a oportunidade de marcar encontro presencial na 38.ª edição da Ovibeja. Ao fim de dois anos, voltamos a ter oportunidade de sentir o bulício da cidade que se encontra com o espaço sociocultural envolvente, com os seus cheiros, a sua paisagem sonora, os seus sabores… um brinde à vida!

O tema deste ano, desta que é a grande feira do sul de Portugal, não podia ser mais pertinente: “como alimentar o planeta” (?). Na sua forma interrogativa, esta é uma frase que ganha expressão crescente nas nossas preocupações. À inflação crescente no pós-pandemia juntou-se agora uma infame guerra nos solos mais férteis da Europa, que aprendi chamarem-se “Tchernozion – um solo altamente sedimentado e negro”. Fértil!

É nosso desejo que a guerra na Ucrânia termine rapidamente e que o seu povo tenha a paz que merece, mantendo a sua soberania. Uma paz que lhe permita cultivar o Tchernozion sem a exploração narrada no polémico filme, Mr. Jones – A Verdade da Mentira (2019), de Agnieszka Holland.

Uma paz que nos permita, enquanto amantes do cinema, [desejar] visitar as escadarias Potemkin, em Odessa… e “rever”, no local, a sequência de imagens em movimento do Couraçado de Potemkin (1925), de Sergei Eisenstein, naquela que é uma cena seminal para compreender o papel da montagem e alteração de planos para a construção dramática da narrativa cinematográfica.

E se é natural que a guerra na Ucrânia marque a discussão do tema da Ovibeja – “como alimentar o planeta” – é importante destacar que irão estar também em debate temas como “a sustentabilidade, a soberania alimentar, a biodiversidade, as alterações climáticas, a cultura urbana e rural ou a informação e a contrainformação”. Percebe-se a sensibilidade da organização para a necessidade de abordar o tema em toda a sua complexidade, contra as ideias simplistas.

Os “barros de Beja”, regados pela água de Alqueva, para além de produziram uma enorme transformação da cromática do espaço, do amarelo-torrado para o verde seco ou branco flor-da-amendoeira, trouxeram-nos desafios à imagem mental de um espaço em transformação. Um espaço em transformação que nos desafia a pensar na criação de uma nova visualidade associada aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da UNESCO.

Estamos perante um espaço cénico que nos inspira ao pensamento e à criação de novas visualidades, com todas as possibilidades da montagem de imagens em movimento para a construção de narrativas implicadas na exploração da complexidade dos temas que nos afetam. “Como alimentar o planeta” (?) é seguramente um desses temas.

A Ovibeja para além de um momento de convívio e reencontro com a vida, livre de máscaras, permite-nos percecionar as transformações que estão a ocorrer no território e que marcarão o seu futuro, o nosso futuro. Vemo-nos lá!

Aldo Passarinho
Professor Instituto Politécnico de Beja