Não nos atirem areia para os olhos

Em Setúbal, apesar do orgulho que temos nas nossas praias e do prazer que sentimos em estender uma toalha num cenário natural único, não gostamos que nos atirem areia para os olhos.

Com o país a assistir ao agravamento do custo de vida, com o aumento do preço de bens essenciais e os rendimentos dos trabalhadores, reformados e pensionistas a nem sequer acompanharem esses aumentos, com os grandes grupos económicos a apresentarem lucros brutais, no momento em que se aprofundam injustiças e desigualdades, é preciso criar casos que distraiam do essencial.

No concelho de Setúbal, perante o trabalho de duas décadas de gestão CDU no município, com a profunda transformação que tem vindo a ocorrer, com outra imagem urbana, com uma revolução na mobilidade e nos transportes a acontecer, com a captação de investimento privado e a criação de emprego, com a salvaguarda e valorização do importante património cultural e natural do concelho, com a defesa intransigente do direito à saúde, com a promoção de uma intensa atividade cultural, desportiva e associativa, é normal que a oposição necessite de criar casos que distraiam do essencial.

Só assim se justifica a histeria criada à volta do processo de acolhimento de refugiados em Setúbal, fazendo crer que a Praça do Bocage é o centro mundial de espionagem e que Putin nem dorme à espera dos relatórios que lhe são enviados a partir do Mercado do Livramento, não vá o preço do massacote ter disparado.

Claro, isto tudo embrulhado em preconceitos, frases feitas e algumas imbecilidades, nada como a palavra Rússia para colocar uns quantos dirigentes partidários a salivar. A muitos ainda nem chegou notícia dos acontecimentos ocorridos no início dos anos 90, as pobres almas ainda têm pavores com perigo vermelho, a URSS, o PCUS e o KGB. Alguém os avise.

Alguns teimam na mentira e sem um pingo de vergonha insistem em afirmar que o PCP não condena a guerra, apoia Putin e a Rússia ainda é comunista. E dizem cada uma destas barbaridades sem rir, o que não deixa de ser motivo de aplauso.

Enfim, à medida que os dias vão passando, mais clara fica a situação.

Ninguém acredita que o trabalho de acolhimento de refugiados em Setúbal não seja realizado com grande qualidade e resulte de uma grande experiência de trabalho de acolhimento e integração da comunidade de Leste, ninguém acredita que este processo seja realizado sem articulação com um conjunto alargado de entidades, ninguém parece estar em condições de desmentir que a associação de imigrantes de Leste que apoiou este processo é reconhecida pelo seu trabalho e desenvolve parcerias com diversas entidades e estruturas da administração central, ninguém parece estar em condições de confirmar e provar as insinuações feitas.

Restam-nos aqueles que em nome da polémica e do ataque à gestão CDU do município de Setúbal estão dispostos a tudo. Discriminam pessoas com base na sua origem ou suposta ideologia, ignoram princípios basilares como a presunção da inocência, adotam discursos de ódio e fomentam o maniqueísmo simplista que nos divide e coloca uns contra outros.

Sim, sabemos o que aconteceu e a quem beneficiou a polémica artificial, alimentada por uma Embaixada estrangeira que dá palpites e participa na vida partidária nacional, servida por um órgão de comunicação social e aproveitada por quem quis atacar a CDU.

Mas não nos atirem areia para os olhos, porque também sabemos quem foi profundamente prejudicado por esta polémica, em primeiro lugar, Setúbal, o seu carácter cosmopolita e intercultural, cidade de Paz, onde todas as comunidades se relacionam e cooperam, integrando-se na vida do concelho. Em segundo, os imigrantes de Leste, maioritariamente, ucranianos que, como transmitiram na Assembleia Municipal, têm agora a sua associação sob suspeita e com menos capacidade de ajudar, em especial, os que acabam de chegar. Em terceiro, todos nós que nos deixamos entreter com estas questões, ignorando a necessidade imediata de dar combate à política de um governo que não combate a especulação e o aumento dos preços e insiste nos baixos salários, permitindo lucros obscenos.

É por tudo isto que, desde Setúbal, dizemos: não nos passem atestados de menoridade, não ponham em causa as escolhas democráticas das populações deste concelho e, sobretudo, não nos atirem areia para os olhos.

João Afonso Luz
Jurista