O Governo, a múmia e o festim de greves

Este segundo Governo não precisa de guerras para se auto-mutilar. A própria maioria, conquistada de forma clara com o voto dos portugueses, é uma arma apontada à cabeça de António Costa. E o presidente da República, como sempre antevi, tem munido um caminho de minas e armadilhas que, agora, começam a ficar mais destapadas e perigosas. Marcelo é como uma pilha, desgasta, desgasta, desgasta…

A maioria de Costa tem negligenciado o óbvio, gerando três equívocos: um de comunicação, outro de estratégia, e ainda outro ligado à oposição da atual direita fratricida.

O falhanço da comunicação é tremendo. Mesmo com dois anos de pandemia, sempre em reação e a tapar buracos – a que se juntou uma guerra no Ocidente próximo, com os efeitos que todos sentimos na pele – este Governo não tem nenhuma queda para se vitimizar. Antes pelo contrário, gaba superavits, enaltece os milhões do PRR e enche-nos de otimismo, o que é sempre positivo, mas não é o caso, porque disfarça apenas uma parte da realidade objetiva.

Com excedentes de milhões, o que deveria notar proeza de governação, o Governo de Costa ofereceu-nos, ao mesmo tempo, um emaranhado de casos e casinhos, dando de bandeja à oposição, aos comentadores e aos media do costume, uma sagaz caça às bruxas, que ainda perdura. Com escolhas duvidosas ou falta de gente capaz para as reformas prometidas, Costa parece muitas vezes navegar à bolina e não consegue trazer ao cimo da espuma dos dias alguns dos resultados positivos do seu Governo.

Finalmente, dormindo à sombra da maioria parlamentar, olha com descuido para a oposição, não vislumbrando alternativa credível, à medida que PSD e Chega se vão degladiando numa aproximação cada vez mais certeira.

Pois ninguém tem dúvidas de que se for preciso unirem esforços para derrubar Costa e o seu Governo, a paz reinará à direita e venha o que vier. Mesmo que seja o anunciado regresso do ‘passismo’. Por todas estas razões, esta maioria instável tem criado o ambiente mais que favorável para levantamentos de rancho.

Com este festim de greves, manifestações de rua e exigências laborais, sociais e de classe, parece que tudo ficou pior nos últimos dois anos. Não é totalmente verdade. Apenas a estabilidade política está aparentemente sólida, permitindo este caldo de contestação à esquerda e à direita, e aproveitamento de radicalismos.

Para compor o ramalhete só faltava mesmo o regresso da múmia. Um ex-presidente da República ressabiado, que continua a verter fel, já esquecido dos seus tremendos falhanços enquanto primeiro ministro.

Bem podemos temer que esta agitação se agrave nos tempos próximos, a que não ajuda a qualidade dos nossos governantes e dos nossos parlamentares. Tanto mais que as escolhas são escassas, com muito poucos a quererem sujeitar-se ao lodo da atual política. Esse, sim, é um tema que carece de um debate sério, sob pena de se acentuar a mediocridade de quem nos governou, de quem nos governa e de quem nos quer governar.

Quase sempre a rua é o respaldo de todas as realidades.