Natal muito mais pobre para os pobres do distrito

Cáritas diz que os apoios prestados triplicam os de 2022. Há agora cerca de 200 sem-abrigo. Número de pessoas desalojadas por não conseguirem pagar as rendas está a aumentar.

O Natal de 2023 será bem mais pobre em todo o distrito. Quem o diz é a Cáritas Diocesana de Setúbal que, fazendo a comparação com os números da mesma época de 2022, revela o crescimento do número de sem-abrigo e, sobretudo, dos apoios prestados.

“Notamos este ano que há cada vez mais sem-abrigo e que os novos que têm surgido são, sobretudo, pessoas que antes seriam da classe média”, diz ao Semmais o presidente da Cáritas Diocesana de Setúbal, Paulo Valente da Cruz. “Neste momento, pelos números que possuímos, estamos a prestar apoio a 200 sem-abrigo, sendo que muitos deles nem sequer são do distrito”, afirma.

O presidente da Cáritas Diocesana diz ainda que a instituição presta apoio diário a 3.070 utentes, sejam eles sem-abrigo, crianças ou outras pessoas que necessitam de cuidados domiciliários e alimentares. “Notamos que há cada vez mais gente que não consegue pagar as rendas de casa e que estão a ser desalojadas. Algumas dessas pessoas estão a morar nos carros, mas também há muitos que simplesmente vieram para a rua. Há um número muito grande de pessoas que, se pagam a renda não conseguem pagar a água ou a eletricidade e vive-versa. Esta situação está a ser relatada em todos os centro sociais do distrito e torna-se a cada dia mais problemática”, refere o mesmo responsável.

“Tentamos a todo o custo evitar que ocorram mais despejos, mas a verdade é que não temos verba suficiente para atender a todos os pedidos. Os apoios sociais que agora recebemos são o triplo daqueles que nos foram solicitados em janeiro e fevereiro do ano passado”, diz Paulo Valente da Cruz, lembrando que “o Estado deve, rapidamente, criar verbas para as famílias que não conseguem suportar as rendas das habitações, sob pena de a situação se tornar ainda mais crítica e os apoios das instituições ainda mais insuficientes”. “O que se passa neste momento é que o próprio Estado, através da Segurança Social, está a pedir auxílio a instituições como a Cáritas. Procuram, por exemplo, que lhes arranjemos locais para dormirem”, afirma.

“Tentamos sempre acudir a todos os que necessitam. Talvez por isso esteja a acontecer algo que dá que pensar. É que, pelos dados que temos, das pessoas que ajudamos, apenas 30 por cento são do distrito”, diz o presidente da Cáritas.

“Neste momento, de um grupo de cerca de 900 pessoas a quem ajudamos, cerca de 700 são cidadãos nacionais e apenas cerca de 300 residem no distrito. É frequente recebermos aqui, para tomarem refeições, pessoas que vêm de Lisboa (utilizam o comboio). Temos muita gente dos Palop’s, mas também da Ucrânia e da América Latina, sobretudo brasileiros”, explica ainda o mesmo responsável.

Ainda sobre as pessoas sem casa que estão a ser acompanhadas pela Cáritas, o presidente da instituição diz que é cada vez mais difícil encontrar soluções. “Temos 17 pessoas em apartamentos partilhados e 13 alojados ao abrigo do programa Housing First. Acontece que neste último programa a Segurança Social dá apenas 50 euros por utente, verba que fica muito distante do que tem de ser pago mensalmente aos proprietários das casas”, explica.

A Cáritas Diocesana de Setúbal gastou no ano passado mais de meio milhão de euros em alimentação para quem a solicitou. Este ano, segundo Paulo Valente da Cruz, os custos das refeições aumentaram, em janeiro, 13 por cento. “Neste momento já vamos em cerca de 600 mil euros. É um problema que não deixa de aumentar. No ano passado servimos um total de 101.070 refeições. Este ano serão bem mais”, acrescenta. Apesar das grandes dificuldades financeiras, a Cáritas continua a desenvolver diversas atividades.

Assim, a 24 de dezembro, realiza-se o almoço de Natal onde são esperadas mais de 200 pessoas sem-abrigo. Depois, diz o presidente, realiza-se ainda “uma feira onde serão vendidos presépios feitos em renda”. “São feitos por idosos e a receita, assim como aquela que se possa amealhar durante o programa ‘10 milhões de estrelas’ e onde são vendidas velas a dois euros cada, será utilizada para ajudar a pagar rendas de casa e outras despesas associadas”, conclui.