“O Erro de GPTO” – uma metáfora sobre identidade de género e robotização

Novo espetáculo conta com texto original de Rosa Dias, fruto de uma inspiração livre em “Pinóquio”. A encenação é assinada por José Maria Dias.

O Teatro Estúdio Fontenova estreia esta sexta-feira no Fórum Luísa Todi, em Setúbal, o seu mais recente espetáculo, intitulado “O Erro de GPTO”. Este trabalho, que estará em cena até ao dia 23, resulta de um texto escrito por Rosa Dias que, inspirada no clássico infanto juvenil “Pinóquio”, procura apresentar um ponto de partida para temas atuais como a identidade de género e a robotização.

“A Rosa abordou-nos porque gostava de fazer um texto sobre a questão da transsexualidade e acabou por construir este como uma metáfora que, não falando diretamente desse tema, pode ser lido por esse ponto de vista. Além disso, é uma abertura para outros temas porque depois leva o GPTO a ser um sistema que controla PI e nós também, pois seja qual for o sistema somos controlados. E há ainda a questão da ligação à inteligência artificial, sendo que o GPTO é um sistema logaritmo que controla PI, que é um robô”, revela José Maria Dias, encenador da peça, ao nosso jornal.

O espetáculo apresenta-se assim como um monólogo que, interpretado pelo ator Ren D-Marcus, dá corpo e alma às várias personagens que vão nascer neste universo de GPTO. “Um monólogo não é necessariamente algo monótono e a nossa companhia já demonstrou isso. Neste caso, temos várias emoções, ação e várias outras coisas. Vamos ter uma iteração grande com o cenário, com o som e a luz e as várias personagens que aparecem, não vão ser só no corpo e voz do ator. É isso que posso revelar”, sublinha o dramaturgo.

Incentivar reflexão sobre construção da sociedade

Para o José Maria Dias, este texto e espetáculo servem como abertura para se discutir a construção da sociedade e a aceitação do diferente. “Vivemos uma tradição e costumes de tradição cristã, mas sobretudo católica, que é alicerçada numa visão de existência única, binária. Não é admitido mais que o masculino e feminino e isso traz alguma confusão. Alguns partidários dessa tradição, infelizmente, demonstram comportamentos de ódio e de incompreensão, motivados por ignorância, algo que foi ultrapassado por outras culturas. É preciso abrir um pouco as mentes e este trabalho, não sendo feito para a comunidade LGBT+, que pode aderir e se identificar mais com esta reflexão, é principalmente para todo o público e sociedade para podermos debater e refletir sobre estas questões”, defende o encenador.

Nesse sentido, na opinião do mesmo responsável, este novo trabalho vai ao encontro de tantos outros que o Fontenova tem feito, ao longo da sua história, ligados à atualidade e ativismo social e cultural. “Aqui fazemos teatro sempre com algum prepósito, nunca como apenas entretenimento. Foi com essa mesma motivação, por exemplo, que abordámos recentemente o que aconteceu no Estado Novo e depois do 25 de Abril e ainda a abordagem à ocupação de terras do Litoral Alentejano por multimilionários e a dificuldade que temos de ter acesso às praias daquela zona”, sublinha José Maria Dias.