Rede de transportes e trotinetes são obstáculos no distrito para os invisuais

A sociedade continua impreparada para integrar os portadores de deficiência visual.  As barreiras à autonomia são muitas. O distrito de Setúbal não é exceção.

Carla Badalo nasceu com apenas 50 por cento de visão. Mesmo com limitações, esta residente no Seixal, foi conseguindo levar a vida com uma certa normalidade. Para além das rotinas diárias também cumpria com autonomia as tarefas no emprego, até à noite em que tudo mudou. Bateu com a cabeça na mesa de cabeceira e, a partir daí, o seu mundo ‘escureceu’ e a vida tornou-se mais “dolorosa”.

“Não vou negar, foi muito difícil, de repente vejo-me sem nada, ainda por cima coincidiu com a mudança de casa. E voltar a trabalhar também não foi nada fácil, estava habituada a ver o que escrevia no computador, de repente tive de me adaptar a um robot que me dá indicações por voz”, partilha com o Semmais.

Apesar de todas as dificuldades, Carla encara a situação com naturalidade e boa disposição, confessando-nos achar “engraçado o facto de sempre ter tido medo do escuro e hoje se deparar”, definitivamente, “com essa imposição”.

A história desta invisual é um caso de superação perante a adversidade de ter perdido por completo um dos nossos cinco sentidos. Uma realidade que se repete no percurso do seu “apoiante incondicional”: o marido. A visão foi-lhe ‘retirada’ a certa altura da vida (não especificou quando nem como) e teve de se adaptar. Hoje, por exemplo, para tentar conjugar as diferentes cores que já conseguiu ver socorre-se da tecnologia. “Temos uma máquina que nos identifica a cor da roupa, basta encostá-la à peça que pretendemos vestir e depois fazer a escolha”, conta.

“O iPhone tem uma função por voz, através da qual podemos desempenhar qualquer atividade que queiramos, sendo conduzidos por um robot. É assim que conseguimos utilizar o telefone para escrever uma mensagem”, explica ao nosso jornal o marido de Carla Badalo, durante o jantar sensorial Blinding Dinne promovido pelo Centro Comercial RioSul em parceria com a ACAPO – Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal, para celebrar o Dia Mundial da Bengala Branca e lançar o desafio aos restantes participantes de experienciar uma refeição com os olhos vendados. O objetivo foi alertar para uma das muitas barreiras sentidas pelos invisuais para se integrarem numa sociedade impreparada para utilizar a audição, o paladar, o olfato e o tato.

“A sociedade está tão centrada no uso do sentido da visão para tudo que esquece, com demasiada frequência, que há pessoas que não a podem utilizar. Pensam muito nos outros sentidos como complementares e, na realidade, eles muitas vezes podem transmitir exatamente a mesma informação que a maior parte do cidadão comum perceciona de uma forma visual” disse ao Semmais Rodrigo Santos, presidente da Direção Nacional da ACAPO.

 

Acessibilidades e atitudes levantam barreiras à integração

E no distrito de Setúbal a situação não é diferente, sendo que, atualmente, um dos problemas mais graves para a associação é a frequente utilização, de forma inadequada, das trotinetes. Estes veículos silenciosos que circulam nos passeios, dizem, são difíceis de “identificar por um invisual”. “Muitas são as vezes que os utilizadores abandonam as trotinetes no meio do passeio, dessa forma tornam-se num obstáculo perigosíssimo, dificultando a mobilidade de quem não consegue ver”, afirma com indignação a instituição.

Outra das barreiras assinaladas pelas ACAPO na nossa região é a falta de acessibilidades na rede de transportes públicos, um fator que acaba por condicionar a entrada no mercado de trabalho e o direito à vida social. “Os transportes possibilitam o acesso independente ao emprego, ensino, saúde e às atividades sociais e recreativas. Sem transportes acessíveis é mais provável que as pessoas com deficiência visual sejam excluídas de serviços e do contacto social”, alega o presidente.

Apesar de não existir no distrito de Setúbal nenhuma delegação da ACAPO, a instituição tem na margem Sul do Tejo 181 associados. Um número expressivo que leva Rodrigo Santos a manifestar vontade de, no futuro, poder intervir com maior proximidade. “Requer a possibilidade de instalarmos uma delegação, no entanto as dificuldades burocráticas que surgem ao longo do processo não facilitam a decisão. É necessário encontrar um espaço, facilmente alcançável através da rede de transportes coletivos e precisamos também do suporte económico por parte da segurança social, o que é sempre muito demorado”, conclui.