Reportada nova descarga ilegal na zona da Mourisca

O presidente da junta reportou nova descarga, mas a câmara diz que podem ser apenas detritos. Autarcas, GNR e APA deverão até ao final do mês visitar a Sado Internacional onde, alegadamente, terão tido origem as descargas ilegais no início do verão.

Não está ainda confirmado tecnicamente, mas poderá ter havido uma nova descarga ilegal na vala de Brejos de Canes, na zona da Mourisca, em Setúbal, alegadamente com origem no Centro Empresarial Sado Internacional, onde se localizam dezenas de empresas.

A denúncia foi feita ao Semmais pelo presidente da Junta de Gâmbia-Pontes-Alto da Guerra, garantindo que “foram detetadas escorrências e maus cheiros”, muito idênticos aos verificados no primeiro alarme. “Esta situação tem que acabar de vez e depois apurarem-se as responsabilidades”, afirma Luís Custódio.

O autarca está seguro que a origem dos incidentes é o parque da Sado Internacional, mas recusa apontar o dedo a alguma empresa específica. “O processo está nas mãos do Ministério Público, cabe-nos apenas reportar as ocorrências”, reiterou ao Semmais. Mas garante que as consequências “são graves”, uma vez que as alegadas descargas acabam por poluir a vala de Brejo de Canes, que se estende por cerca de 1800 metros, sendo que 500 a 700 metros são silvas e caniços, e desaguam na Mourisca, entrando no Sado. “São produtos que afetam as linhas de água, o subsolo e o estuário que é zona protegida”, diz Luís Maurício.

A câmara de Setúbal, cujo presidente, André Martins, tem vindo a pressionar as autoridades ambientais para a identificação dos alegados prevaricadores, não confirma estas novas descargas, mas admite a existência de escorrências no mínimo duvidosas. “Da primeira avaliação que se fez no terreno a conclusão é que podem ser apenas detritos, mas neste momento o município está impedido de tomar alguma iniciativa, a não ser fazer relatórios e enviá-los para o Ministério Público que chamou a si todo o processo”, explicou ao nosso jornal, a vereadora Rita Carvalho, que tem estado a gerir este dossier por parte da autarquia sadina.

Ainda assim, a autarca garantiu que “até ao final do ano será feita uma visita técnica ao local” com o SEPNA da GNR e elementos da Agência Portuguesa do Ambiente, autoridade que está a desenvolver as investigações técnicas aos resíduos despejados na referida vala, tendo detetado em julho deste ano a existência de produtos químicos resultantes alegadamente da atividade de empresas que laboram no parque empresarial.

Câmara selou vários coletores de um dos blocos

Recorde-se que, em outubro, a autarquia foi autorizada a selar alguns coletores de vários armazéns localizados no bloco SD da Sado Internacional, com o objetivo de evitar novos derrames até ao apuramento das responsabilidades.

A administração da Sado Internacional, a NTV, também confirmou, em setembro a situação, tendo enviado aos seus clientes uma nota da APA referindo as denúncias que davam conta das investigações sobre descargas ilegais para a rede pluvial “que descarrega para um efluente do rio Sado”.

Para além da poluição de lençóis freáticos e do leito do Sado, outra consequência aparentemente já confirmada tem a ver com a atividade agrícola das zonas contíguas. “Há danos graves nas terras de cultivo e grande risco para a fauna e flora das regiões adjacentes ao parque”, pode ler-se na nota enviada pela NTV, a que o Semmais teve acesso.

No mesmo sentido, o líder da junta de freguesia garante que um produtor de batata-doce e abóbora terá ficado com os cultivos prejudicados. “Foi quase tudo à vida”, lamentou, acrescentando que o mesmo agricultor teve que optar por dedicar parte dos seus terrenos ao cultivo de cevada que “não é tão rentável”.

GNR acompanha diligências e para já não há suspeitos

Mesmo com a selagem de vários coletores no bloco de armazéns que as autoridades admitem ser a origem do problema, até ao momento não há suspeitos. Isso mesmo foi confirmado por uma fonte da GNR, polícia que tem acompanhado várias das diligências do processo à guarda do Ministério Público. “Não é fácil nestes casos apurar responsabilidades diretas”, disse a mesma fonte.

Quem não tem dúvidas da origem das descargas é o presidente da câmara de Setúbal. “A APA já identificou o condomínio do Centro Empresarial Sado Internacional como responsável pelas descargas daquilo que as análises revelaram ser produtos químicos resultantes da atividade das empresas que ali laboram”, afirmou André Martins em setembro deste ano, durante uma ação de protesto na zona da Mourisca.

Apesar da gestora do condomínio, NTV, sublinhar que as empresas localizadas no par- que não operam atividades industriais, algumas fontes contactadas pelo Semmais falam da existência de unidades que podem lançar para os coletores, nomeadamente hidrocarbonetos, e outras que se dedicam a lavagens industriais. “Há também um grave erro de construção no bloco em causa, uma vez que praticamente todos os esgotos, mesmo as águas do exterior, vão desaguar a um mesmo coletor”, garantiu uma das nossas fontes.

O Semmais tentou contactar sem sucesso a NTV, que alegou não poder fazer qualquer declaração enquanto o processo está sob a alçada do Ministério Público.