Sucesso alavancado na qualidade e na relação justa com o cliente

Jaime Quendera, enólogo e general-manager da Cooperativa Agrícola de Santo Isidro de Pegões, em conversa com o Semmais, conta qual é a receita do sucesso nacional e internacional dos vinhos daquela que é já considerada a maior adega do país.

Os vinhos da vossa cooperativa são reconhecidos pelo público e pelos especialistas, conhecidos, como é que os descreve?

Normalmente o que procuramos é aquilo que os vinhos de Setúbal têm como principal característica: a elegância, a cremosidade e a suavidade. Ou seja, Setúbal é Sul e Sul é sol, sol é maturação, quando os vinhos são maduros, são sempre mais macios e mais cheios, e é isso que procuramos. É transmitir o que a terra tem, que é esse sol, que traz elegância, suavidade e cremosidade. É isso que os vinhos de Pegões têm e também é isso que as pessoas gostam.

São esses os fatores que têm contribuído para um crescimento positivo ao longo dos anos?

Perfeitamente. Tanto que nos tornamos na maior cooperativa nacional. Se hoje somos a maior cooperativa portuguesa, e não o éramos há 40 ou 50 anos, é porque as pessoas compram cada vez mais os nossos vinhos e porque os vinhos estão dentro daquilo que as pessoas gostam. No ano passado, por exemplo, produzimos 12 milhões de litros, o que resultou num montante um pouco superior a 24 milhões de euros. Estamos a falar de um ano recorde a esse nível. Temos um pouco mais de mil hectares de vinha, tendo nos últimos anos, de ano para ano, aumentado em 30, 40 hectares consecutivamente, mais coisa menos coisa.

Apesar destes resultados, calculo que têm sentido os efeitos da crise financeira…

Temos sentido um grande aumento de custos, principalmente nos elementos de produção como o vidro e energia. Apesar do lucro de 24 milhões, tivemos uma redução significativa na nossa margem, em torno dos 30%. Não conseguimos compensar, porque não conseguimos passar essa subida para o mercado, a curto prazo. Estamos a comprar ao novo preço os materiais subsidiários – as garrafas, as rolhas, os rótulos, etc – mas vendemos ainda com o valor do ano passado.

Mas estão a pensar ajustar os preços de venda?

Se não queremos perder ainda mais margem, vai ter de acontecer, mas pode demorar meses até se conseguir. Mas atenção, não podemos estar a aumentar por aumentar. Em Pegões temos bem presente que se chegámos onde chegámos é porque tratamos bem o consumidor, procuramos sempre ter uma relação correta. Os vinhos são muito bons e têm um preço qualidade muito bom e nunca podemos defraudar quem compra e confia no nosso produto. Exemplo disso é que, neste último ano, optámos por perder alguma margem, mas não perdemos o cliente. Temos de ser justos com as pessoas, se aumentarmos muito os preços, ninguém compra. Ganhamos a nossa margem, que é pequenina, mas por outro lado vendemos muito.

E a qualidade a que habituaram os consumidores é para manter…

O português sabe de vinho e tem muita oferta. Se começarmos a oferecer um produto que é mais caro que o concorrente e a qualidade pior, ele muda logo. Não tenho dúvida nenhuma. É ele que atesta a qualidade. Num momento em que oferece um vinho que não tem a qualidade para o preço, as vendas começam logo a baixar. Isto é quase matemático e está tão padronizado e orientado que se sairmos do carril outro ocupa o nosso lugar. Não se vai para o mercado vender gato por lebre, aqui não se consegue, porque aqui há muito vinho e muita gente a perceber de vinho. Se estamos numa posição boa temos de manter a qualidade e ser corretos com o consumidor.

Que conclusões tiram dos inúmeros prémios, nacionais e internacionais, que têm conquistado?

O nosso produto tem muita qualidade. Exemplo disso é quando vamos a grandes competições e ganhamos os melhores vinhos nas provas cegas. Vamos aos concursos, mas não é para chegar a todo o lado, porque a nossa aposta é no mass market, num vinho de boa relação qualidade preço que é isso que o português quer e compra, mas queremos mostrar a nossa qualidade e trabalho. E isso depois dá confiança às pessoas, seja numa prateleira de uma loja ou de um restaurante. Pedem Pegões e sabem que é uma opção com qualidade e segurança. Procuramos fazer sempre bom, bem feito e direitinho, assim nunca perdemos o centro do consumidor.

Como se comportam nos mercados internacionais?

Já exportamos 30% da nossa produção, o que dá cerca de oito milhões de euros. Não são muitas as empresas portuguesas que conseguem estes números. Diria que o mercado europeu é onde vendemos e nos movimentamos com mais facilidade, porque beneficiamos do nível de proximidade, logística e também do conhecimento e entendimento sobre vinho. Tanto que os nossos principais mercados são os Países Baixos, a Polónia e o Reino Unido. É aqui que os concursos ajudam também. Nós, por exemplo, temos conquistado muitas medalhas no Canadá. No ano passado, juntamente com a Casa Ermelinda Freitas fomos as produtoras portuguesas mais premiadas no Canadá. O Canadá é um dos nossos principais mercados e já atingimos vendas de um milhão para esse país.

196 distinções em 2022

22 Medalhas Grande Ouro ou troféus equivalentes

97 Medalhas de Ouro

53 Medalhas de Prata

24 Medalhas de Bronze

Países onde esteve em concurso: Alemanha, Bélgica, Brasil, Canadá, China, Coreia do Sul, França, Inglaterra, Portugal e Rússia