Reconhecer e estimular os esforços dos agentes culturais, deve ser uma das prioridades de quem tem sobre si a responsabilidade de programar e conduzir a cultura nas suas diversificadas vertentes.
Para que esse importante pilar de progresso se venha a sedimentar, é necessário que tanto o poder central como local optem por critérios isentos e ao mesmo tempo tenham em conta a própria intervenção dos agentes culturais – sejam eles associações ou pessoas singulares – fazendo que com as atribuições de apoios sejam justas e merecedoras.
Embora reconhecendo a sua complexidade, pensamos que os parâmetros de avaliação, por vezes, não são os mais correctos e ao mesmo tempo tiram força e ânimo a projectos de grande valia.
Em discurso mais directo – entra-se num jogo, onde se opta pelos ditos “bons” e “maus” – numa disputa desigual pelo espaço de sobrevivência.
Infelizmente sempre foi assim. Por mais que nos queiram lavar o cérebro e se pensarmos de uma forma racional, abstraindo de qualquer preconceito social, político, étnico ou religioso, percebemos que os interesses em jogo, a ambição desmedida e a ganância do lucro sem regras são factores e regras básicas na respectiva avaliação.
Nesse padrão, não existem juízos de valor e de qualidade, o que sobressai é uma luta – onde os maus projectos se sobrepõem aos bons – onde os lobbies impõem um branqueamento total e deliberadamente um clientelísmo político e partidário, sem qualquer espécie de controle.
A verdade é que, seja consciente ou inconscientemente, este tipo de avaliação tem tido no nosso panorama cultural grandes repercussões, dando lugar discriminações bizarras e sem sentido.
É como estivéssemos a escolher um produto, num folheto, sem testarmos a qualidade e sua viabilidade.
Neste jogo de aparências, onde se esconde as características dos que julgam, é necessário que não fiquemos fechados em preconceitos, mantendo a porta aberta até vermos para além das aparências e continuarmos na investigação do conhecimento e partilharmos do sentimento afável de inquietação e assombro que de si advém.
Ao longo de todos estes anos, a sedução pela cultura tem criado em nós um cordão umbilical que dificilmente nos iremos libertar.
O seu encanto tem-nos fascinado de forma tão íntima, que dificilmente desenleia a nossa sedução.
Incaracteristicamente, as amarras de Portugal continuam assentes no “salve-se quem puder” ou ainda no egoísmo de “quem viver atrás que feche a porta” deixando correr este país para um lamaçal onde impera a falta de verdade e de rigor.
Ao persistirmos nesta desmandada crise de valores éticos, não sairemos desta vil tristeza que estamos mergulhados.
É tempo de equacionarmos os problemas e de uma vez para sempre fixarmo-nos na plenitude de uma ferida, que embora grave ainda está a tempo de sarar.
O nosso desenvolvimento cultural não pode estar sujeito a pactos onde os ditos “bons” sejam os altruístas do saber, e os ditos “maus” sejam pelo facto de perspectivar análises e pontos de vista diferentes, sejam afastados e humilhados.
Artur Vaz – escritor



