As encruzilhadas da paz

Perante as entropias políticas e populistas que estamos a viver à escala mundial, ganha cada vez mais importância o papel da Europa como fortaleza de valores, mantendo a parte sã do mundo ocidental preso ao progresso social e ao desenvolvimento sustentável.

Não partilho o chorrilho de críticas que apontam à Europa e aos europeus a indecência de terem apostado tudo na paz e, em consequência, se terem desarmado, menosprezando a sua defesa e segurança estratégicas. Mas esse era o único caminho e a prioridade máxima, depois dos traumas das duas guerras mundiais que devastaram o continente.

Veio, depois, uma fase longa de progresso, vitalidade e recuperação económica, a par dos valores humanistas, que só a paz permite, num mapa de outros desafios que deviam ser hoje, ainda, caminhos a seguir, como o desenvolvimento sustentável, a igualdade e justiça social, o ambiente e defesa climática, a inovação e o aproveitamento das novas tecnologias. Nesta fase, que teve o seu epilogo, na chamada Guerra Fria, a Europa colocou-se debaixo do chapéu dos Estados Unidos, entregando-lhe a garantia da sua defesa.

No final do século passado e desde os anos 2000, muitos de nós tivemos a ilusão de que o mundo tinha entrado na era da paz e da globalização, com as guerras próximas arredadas das fronteiras europeias. Posicionamento que, naturalmente, levou a cortes nos orçamentos militares, à redução de efetivos e ao fim do serviço militar obrigatório.

E o que foi priorizado? Os sistemas de saúde, da educação e do bem estar social.

Neste entretanto, sem inimigos bélicos junto ao seu espaço vital, seguro pelas bases americanas em solo Europeu, ao abrigo de uma NATO pujante, criada não para a guerra, mas dissuasora, armada com o seu artigo 5.º, (um ataque a um é um ataque a todos) a Europa tornouse dependente do comércio internacional e da energia da Rússia, dando a sensação de uma segurança baseada na interdependência económica.

Não contava, entretanto, com a chegada ao poder de Donald Trump, numa administração americana que escolheu romper alianças e religar-se a um mundo oligarca, que tem uma visão do mundo estritamente economicista, de ganância e selvajaria financeira, de rutura e de conquistas sem olhar a meios.

Agora, debate-se com uma crise de identidade geopolítica, descobrindo, com a invasão da Ucrânia, em 2022, que a paz nunca está garantida, vendo-se obrigada a reverter as suas políticas de armamento, prevendo-se que vá desviar enormes recursos financeiros das áreas sociais para a indústria da guerra.

Diz-se que é só mais um ciclo da história revisitado, que abala e nos põe à prova. E o que vier a seguir, das cinzas e dos despojos, será sempre uma espécie de filtragem entre o bem e o mal.

Mas já não parece haver dúvidas de que o desfecho desta tempestade perfeita é muito incerta e que não vai correr nada bem.