Os mais recentes episódios de xenofobia e racismo, traduzidos em atos de ódio e violência física — como o ataque ao ator da companhia “A Barraca” — revelam uma tendência alarmante que não surge por acaso. Estes acontecimentos estão, infelizmente, em sintonia com a crescente radicalização político-partidária que Portugal tem conhecido nos últimos tempos.
Como se nada se tivesse passado, assiste-se a um perigoso lavar de mãos por parte de alguns setores políticos, sobretudo da direita e da extrema-direita, que não podem ser ilibados das suas responsabilidades. O discurso inflamatório do Chega e a retórica ambígua de certos dirigentes da Aliança Democrática nas duas últimas campanhas legislativas criaram o terreno fértil onde hoje germinam estas manifestações de ódio, de fanatismo e arrogância.
Negá-lo é querer tapar o sol com a peneira. A verdade é que a instrumentalização política da insegurança, da imigração e das minorias tem gerado perceções distorcidas da realidade, alimentadas por manipulações conscientes da verdade. E esse cenário está a ser aproveitado por forças extremistas que, sentindo o vento a seu favor, começam agora a emergir sem pudor.
Exemplo paradigmático disso é a recente operação da Polícia Judiciária, que deteve seis elementos do grupo neonazi Movimento Armilar Lusitano, suspeitos de planear ataques ao Parlamento e outras ações violentas. Um sinal claro de que o perigo não é abstrato — é concreto, organizado e ativo.
A escalada de hostilidade contra minorias, estrangeiros e comunidades vulneráveis refl ete um tempo em que a racionalidade e a decência são pisadas por um nacionalismo bacoco e por uma radicalização crescente, amplificada nas redes sociais como se se tratasse de um exército virtual em prontidão permanente.
Esta é uma ameaça real. E, não tenhamos ilusões: se continuarmos a brincar com o fogo, mais cedo ou mais tarde iremos pagar por isso.
A sociedade portuguesa, na sua maioria, não se revê neste extremismo. E a verdade é que a legislação existente, se bem aplicada, é suficiente para lidar com questões como a imigração ilegal, conflitos nos chamados “bairros-problema” ou outros fenómenos criminais. As estatísticas têm demonstrado repetidamente que não existe uma ligação direta entre etnia, nacionalidade e criminalidade. Mas a “falsaverdade” vingou, instalou-se com força e veio para ficar.
A ascensão desta exposição perigosa tem sido potenciada por uma comunicação social não raramente acrítica e por uma liderança política que hesita em traçar linhas vermelhas e acomoda partes desta falsa narrativa. Neste caldo de desinformação e irresponsabilidade, está a formar-se um novo campo de batalha: o da normalização do ódio, da divisão e da intolerância
À semelhança do que se observa noutros países ocidentais — com os Estados Unidos à cabeça — Portugal arrisca-se a entrar num ciclo vicioso de fragmentação social, desconfi ança mútua e perda de compaixão.
O combate que se segue não será apenas político. Será moral, social e cívico. E, se as vozes críticas do presente forem tratadas como marginais ou silenciadas pela força de uma hipotética maioria, o futuro pode revelar-se muito mais sombrio do que hoje imaginamos.



