Durante décadas, a Europa foi o farol da paz, da civilização e do progresso social. Erguida sobre as cinzas da Segunda Guerra Mundial, construiu-se uma sociedade onde os direitos e deveres se equilibravam, onde a tolerância era não apenas uma palavra de ordem, mas um pilar de convivência. A urbanidade, o desenvolvimento e os valores sociais formaram o tripé de um ideal civilizacional que inspirou o mundo. Mas esse farol está a apagar-se.
Nos últimos vinte anos, o fosso entre os ideais e a realidade tem-se alargado perigosamente. A crise do subprime, início da derrocada, revelou a fragilidade de um sistema entregue à ganância e à selvajaria económico-financeira. Quase fomos à ruína, mas sobrevivemos, muito à custa de sacrifícios sociais que ainda hoje se sentem.
Depois vieram as guerras, os extremismos e os loucos, que chegados ao poder e com influência maior, desafiam a razão, desrespeitam tratados, rasgam convenções e semeiam o caos com a indiferença de quem tem pouco a perder, anestesiados por cantos de sereia.
Neste momento, vivemos sob a égide de uma cegueira coletiva. Os alicerces construídos com sangue, diplomacia e bom senso estão a ser corroídos por uma epidemia de insanidade, mais perigosa do que qualquer vírus, porque se espalha sorrateira entre líderes carismáticos e massas desorientadas. O direito internacional tornou-se decorativo: a ONU, impotente, vale quase nada, e a desregulação avança como um torpedo em roda-livre.
No nosso caso, é Europa quase subserviente, resignada ao papel de seguidora num mundo liderado pelo caos. A corrida ao armamento – com os europeus a chegaremse aos 5% do PIB das suas nações, como ficou provado esta semana na Cimeira da NATO – impõe-se como prioridade, empurrando para segundo plano as políticas sociais, a transição ecológica, a educação, a cultura. Aquilo que nos definia está a ser desmontado peça a peça.
Estes incendiários, muitos já octogenários, não se preocupam com a terra queimada que deixarão. O objetivo é outro: ficar na História, nem que seja pelas piores razões. E nós, apáticos ou cúmplices, vamos sendo arrastados por esta maré de loucura.
A verdade é que os pirómanos, quase sempre solitários e movidos por interesses inconfessáveis, só precisam de silêncio à sua volta para incendiar o que resta. E a soma destas fogueiras ameaça transformar a Europa num continente irreconhecível. Resta saber se ainda vamos a tempo de apagar o rastilho.



