Nos labirintos da política setubalense, uma decisão ecoa como uma traição subtil aos princípios que outrora moldaram a identidade do Partido Social Democrata (PSD).
Como setubalense, sinto um misto de incredulidade e desilusão ao assistir à estratégia de Monte Negro e da sua direção nacional para as autárquicas de Setúbal.
O que seria de esperar de um partido com um legado tão significativo como o de Sá Carneiro tornou-se uma mera sombra do que poderia ser, um jogo de conveniências que ignora a moral e a ética.
Sá Carneiro, um dos fundadores do PSD há 51 anos, deve estar a dar voltas na sua última morada ao ver o que se passa. O medo de perder novamente a Câmara Municipal de Setúbal levou Monte Negro a uma decisão que trai os próprios fundamentos do partido.
Em vez de apresentar candidatos representativos e com caráter, optou por suportar uma candidatura que não reflete a essência social-democrata, mas sim uma rendição vista com pragmatismo.
Historicamente, o PSD sempre conseguiu eleger vereadores, mantendo uma presença na oposição. Essa presença era crucial e valorizada pelos militantes e simpatizantes. Entretanto, a atual liderança demonstra não só falta de ambição, mas uma linha de raciocínio que quase se poderia classificar como cobardia política. A falta de combatividade não é considerado prudência, é sim um sinal de fraqueza que fere a dignidade de quem idealizou o partido e acreditou que ele era um vetor de mudança e de luta pelos direitos dos cidadãos.
Ao abdicarem de defender as suas ideias, Monte Negro e seus pares lançam os militantes e simpatizantes ao abismo da desilusão. Eles não apenas ignoram a vontade do eleitorado, mas também traem a confiança de uma base que, durante décadas, acreditou que o PSD era mais do que uma ferramenta a serviço da ambição individual. Esta candidatura, forjada em acordos de bastidores, sem debate interno ou escrutínio sério, representa uma quebra gritante com os valores do partido.
Ao apoiar forças externas, o PSD não só se distancia de Setúbal, como desiste da sua própria identidade. A ideia de que a “obra feita” de alguém justifica a falta de critérios éticos é um raciocínio que não se deve aceitar. Desde quando se aprendeu que a ética se deve submeter ao pragmatismo político?
Um partido com história deve lutar pela sua dignidade, não deve acomodar-se como uma muleta de interesses pessoais disfarçados de independência.
Acredito que será um momento de profunda reflexão para todos os militantes e simpatizantes do PSD, que outrora encontraram no PSD uma voz para os seus anseios e necessidades.
Setúbal merece mais do que o alarmante vácuo deixado pela atual direcção nacional, que preferiu rendições face a desafios. O legado de Sá Carneiro pede que se retome a luta pela ética, pela moral e, acima de tudo, pela verdadeira representação dos cidadãos.
Que futuro poderá restar a um partido que se nega a lutar pelos seus próprios valores?
Será preciso o reavivar a chama que deu origem ao PSD, um projeto com princípios e não um mero alinhamento em torno de interesses passageiras. Que se possa encarar o futuro sem esquecer o passado, e que Setúbal possa um dia voltar a contar com um PSD que represente dignamente aqueles que acreditam na verdadeira democracia.
Carlos Cardoso – Gestor



