Hoje apetece-me reflectir sobre a bolha de construção turística que está a crescer entre a península de Tróia e Grândola, uma paisagem que conheço bem desde criança e que me inquieta cada vez mais.
Li recentemente, numa peça do Expresso, que o município de Grândola pretende acomodar o dobro de camas turísticas em relação ao número da população residente. Este dado, por si só, seria suficiente para levantar questões. Mas, tendo vivido o suficiente para testemunhar vários ciclos de crescimento imobiliário desmedido, sinto-me particularmente preocupado. É como se costuma dizer, já vi este filme antes e raramente acaba bem.
Ao longo das últimas décadas, assistimos ao projecto de troia, promovido sem o devido planeamento e sem qualquer visão estratégica a longo prazo, a nível de infra-estruturas de apoio. Resultando que só se nota movimento nos dois meses de verão julho e agosto estando os restantes meses como um empreendimento fantasma, um verdadeiro “elefante branco” que se torna um fardo para o território em vez de um motor de desenvolvimento.
Hoje, o que observo entre Tróia e Grândola faz-me temer que estejamos a repetir os mesmos erros. A dimensão das construções em curso, a velocidade a que avançam e a ausência de um plano integrado para o território suscitam dúvidas legítimas sobre a viabilidade económica e social destes empreendimentos. Não será difícil prever que, dentro de alguns anos, muitos deles não irão gerar o retorno esperado e acabarão por ser abandonados pelos próprios investidores.
Mesmo partindo do princípio de que todas as unidades turísticas venham efectivamente a ser concluídas, impõe-se uma questão fundamental: Quem irá trabalhar nestes empreendimentos? É um problema estrutural, não conjuntural. A história mostra-nos que, quando se constroem infra-estruturas turísticas sem pensar nas comunidades locais, os resultados são previsíveis, falta de mão-de-obra qualificada, ausência de serviços de apoio, limpeza urbana deficiente, transportes públicos precários, salários baixos e condições de trabalho pouco dignas.
É por isso que insisto, o turismo não se faz apenas com betão. É necessário investir nas pessoas, na formação, na cultura, na mobilidade, na qualidade de vida de quem lá vive. Sem esse investimento humano e social, não há turismo que resista. Sol e praia não chegam. E sem qualidade na experiência oferecida, não haverá turistas que regressem, muito menos que recomendem o destino.
Se nada mudar, receio que o destino de muitos destes empreendimentos seja o abandono fora da época alta, com prejuízos económicos e impacto negativo na paisagem e no tecido social da região.
Gostaria sinceramente de estar enganado. Mas receio que estejamos a construir sobre areia movediça. Pensamos que temos ouro nas mãos, quando na verdade talvez estejamos apenas perante uma miragem.
O potencial da região é indiscutível. Mas não basta projectar hotéis de luxo ou empreendimentos turísticos milionários. É preciso pensar a região de forma integrada, com respeito pelo território e por quem nele vive. Só assim será possível construir um turismo de excelência, duradouro, sustentável e verdadeiramente benéfico para todos.
Carlos Cardoso – Gestor



