Se um Salazar incomada muita gente, três Arturzitos incomodam muito mais

Ambrósio tinha saudades do longínquo ano de 2025.

Lembrava-se, de forma distante, de ter havido uma greve nacional no fi nal do ano e riu-se para dentro, pensando: e eles ainda reclamavam pois vivíamos com um crescimento económico de 2.3%., tínhamos o emprego em máximos (crescimento de 0,9% em 2026) e a taxa de desemprego em mínimos históricos (6,0% em 2026) e com a redução da carga fiscal e contributiva para as pessoas e para as empresas, sem aumentar um único imposto.

Caramba, pensou até tínhamos um excedente orçamental de 0,1%, que se excluirmos decisões judiciais contrárias ao Estado, PRR e suplementos extraordinários seria de quase 1%.

Mantínhamos a rota e tínhamos uma trajetória de redução do rácio da dívida pública para 88%,, valor que era o mais baixo desde 2009 e, pela primeira vez em 16 anos, o país voltará a ter uma dívida pública abaixo dos 90% do PIB.

Não esquecer que continuávamos a dar cumprimento de todas as obrigações europeias em matéria orçamental, sendo que o saldo orçamental foi de 0.9% do PIB em 2024, será de 1.1% do PIB em 2025 e de 0.7% do PIB em 2026. Isto mostrava uma robustez das contas públicas, com excedentes acima dos 0.2% do PIB que o OE2024, aprovado ainda no governo PS, apresentava.

“fogo”, pensou, uma greve geral? Em pleno emprego, com taxas de crescimento da despesa em 2025 e 2026 em torno dos 5%, depois de em 2024 a despesa ter crescido 9%. Recordei-me que o OE 2024, ainda aprovado pelo governo do PS, previa um crescimento da despesa corrente primária de 7%, fruto de medidas discricionárias do lado da despesa com um impacto superior a 3 mil M€ e, assim, com esta execução orçamental, Portugal reduziu o peso da Dívida Pública em percentagem do PIB. De 96.9% do PIB em 2023, Portugal atingirá uma dívida pública de 87.8% do PIB em 2026, sendo a primeira vez, em 16 anos, que este rácio fi cará abaixo dos 90%.

Teria sonhado que com esta gestão orçamental prudente e realista, as agências de rating têm subido a notação de Portugal, sendo já A+ na S&P (que fez duas subidas consecutivas este ano de 2025) e A na Fitch.? E que a procura de dívida pública portuguesa é cada vez maior? Não, não tinha sido um sonho. Tinha sido a realidade.

De repente deu-lhe um arrepio que lhe percorreu todo o corpo. Tudo tinha mudado, desde que Artur Ventoinha tinha sido eleito presidente da República. Paulatinamente foi mudando as regras da democracia. Democracia? Só se fosse de nome, porque a liberdade de pensamento era hoje em dia um luxo. Ainda em 2026 havia dissolvido o parlamento e tinha conseguido aprovar um governo do Chega, que agora dominava todas as instituições nacionais.

Corrupção, tinha sido a sua bandeira, mas agora isso nem existia. Eles dominavam mesmo tudo, num regime decrépito e autocrático. O presidencialismo era agora o nosso sistema.

Portugal tinha saído das instituições internacionais e tinha deixado de haver mão de obra porque todos os estrangeiros tinham sido expatriados, à revelia daquilo que eram as antigas leis constitucionais.

A constituição tinha sido alterada e a Ponte 25 de Abril, ex-Ponte António Oliveira Salazar, chamava-se agora “Ponte Arturzito Ventoinha”, o “Novo Salazar” que vale por três, segundo o próprio anunciou.

A Castração química era agora uma realidade e os julgamentos sumários eram agora uma prática assutadora. Verdade que casos como o de alguns ex-governantes e banqueiros que tinham prescrito, fruto de muitos abusos, não tinham voltado a haver, com recursos atrás de recursos, mas os direitos dos cidadãos tinham deixado de ser assegurados. Ambrósio preferia os abusos por excesso de direitos do que a privação dos mesmos, agora que essa privação batia à porta de qualquer um.

Ambrósio sorriu de tristeza pois, até a estúpida da greve nos idos de 2025, em que os sindicatos reclamavam antes mesmo de ver a lei discutida, era para si uma saudade. Quem diria (?), pensou ele.

Trim, Trim, o estúpido do despertador, nunca foi tão bem recebido por Ambrósio, que a transpirar em bica, despertou do seu pesadelo. E se agarrou agradecido à realidade. Ainda estava em 2025, com a estúpida greve, ou sem ela, o horizonte ainda era risonho e não seria um estúpido pesadelo a estragar-lhe a esperança num futuro melhor.

Paulo Edson Cunha – Deputado PSD