Gisèle Pelicot – Por todas e por cada uma de nós

Mais um 8 de março, Dia Internacional das Mulheres. Este dia foi comemorado pela primeira vez em 1909, em homenagem às trabalhadoras que morreram num incêndio numa fábrica, na sequência de uma greve em que reivindicavam direitos iguais aos dos homens. As Nações Unidas escolheram esta data simbólica e proclamaram o Dia Internacional das Mulheres em 1975.

117 anos depois da primeira comemoração e 51 anos depois da proclamação pelas Nações Unidas, após um longo caminho de luta de muitas mulheres por uma sociedade mais justa e com mais igualdade, aqui chegadas, continuamos a lutar por salários iguais, pelo acesso a lugares de poder e de decisão, por uma sociedade onde a violência doméstica e de género não tenha lugar, por acesso ao aborto seguro, por direitos iguais na lei e na vida.

A verdade é que, mais de um século depois, continuamos a viver numa sociedade dominada pelo poder masculino, simbólico e factual, que não protege quando devia proteger, que tira proveito quando devia partilhar, que subjuga quando devia emancipar.

Este ano foi marcado por dois casos que abalaram o mundo, os ficheiros Epstein e o caso de Gisèle Pelicot.

A rede de prostituição que Epstein liderava, através do abuso de jovens mulheres, muitas delas menores, envolvendo homens poderosos em diferentes setores, desde presidentes e ministros, príncipes, gente do cinema e dos negócios, misturando este mundo de escravidão de jovens raparigas com a manipulação e o exercício de poder e de dinheiro, é o expoente máximo da força do patriarcado, ancestral, com roupagens que se adaptam a cada tempo e a cada lugar.

Esta força dominante, alimenta-se da ânsia de poder e de dominação brutal, sobre as pessoas mais frágeis, sobre as minorias e em particular sobre as mulheres, sendo tolerado nas sociedades ocidentais que, dissimuladamente, se intitulam o baluarte da liberdade e da defesa de justiça e de decência, mas que albergam estas teias de poder intemporais e dominantes.

O Caso de Gisèle Pelicot, que durante anos foi violada por homens que o marido levava para casa para abusarem do seu corpo enquanto ela estava inanimada, chocou o mundo. Este caso, expoente máximo da masculinidade tóxica, revela a perversidade e a maldade exercida sobre o corpo de muitas mulheres, tratadas como objetos que são propriedade dos homens, e que se traduzem em abusos sexuais, em violência doméstica e de género.

Gisèle Pelicot não se submeteu à sua situação de vítima, encarou o que lhe aconteceu sem vergonha, como sobrevivente e tornou-se porta-voz das mulheres abusadas e maltratadas, não quis um julgamento à porta fechada e tornou-se visível, audível e um símbolo de luta e resistência.

Epstein morreu na prisão, mas os seus ficheiros continuam a desvendar nomes e segredos. Já rolaram cabeças, foram detidos um Príncipe e um Embaixador, por causa disso quase caiu um governo, circulam fotos de Presidentes na companhia de Epstein e jovens raparigas, há testemunhos de vítimas e, certamente vamos descobrir mais histórias sórdidas e hediondas ligadas a esta rede de poder.

Este ano o Dia Internacional das Mulheres, marcado por estes dois casos estrondosos, ganhou especial significado. Protagonizado por Giséle Pelicot, à frente da manifestação deste dia 8 de março em Paris, símbolo da nossa luta e da nossa resistência, por todas e por cada uma de nós.

Catarina Marcelino – presidente da Comissão Política Concelhia do PS Montijo