Vocês não sabem comunicar

Num país onde todos parecem especialistas em comunicação política, há uma ideia que atravessa debates televisivos, conversas de café e painéis de comentadores: “os comunistas não sabem comunicar”. A frase, repetida à exaustão, tornou-se quase um lugar-comum do discurso público.

A acusação de alegada incapacidade comunicacional do Partido Comunista Português serve muitas vezes de explicação pronta para qualquer resultado eleitoral menos favorável, para qualquer mensagem que não furou a espuma mediática ou para qualquer posição do partido que não ganhou destaque. Contudo, vale a pena olhar para o outro lado da questão: e se o problema não fosse a comunicação em si, mas o ambiente comunicacional em que ela circula?

Não se pode dizer que o PCP não tente comunicar de múltiplas formas. Atravessa o país em iniciativas de proximidade, ocupa as redes sociais com crescente regularidade, multiplica conferências de imprensa, participa em debates, produz vídeos e materiais explicativos e insiste, vezes sem conta, na clareza das suas posições. Há quem diga, até, que o partido já experimentou “fazer o pino” para ser ouvido — e talvez não seja apenas figura de estilo.

Ainda assim, há uma sensação persistente de que, independentemente da forma, a mensagem não chega ou não chega tal como é formulada.

O PCP move-se entre o silenciamento e a deturpação da sua mensagem, iniciativas e propostas.

O Congresso da Juventude Comunista Portuguesa, com milhares de jovens reunidos em Novembro passado, em Oeiras, foi disso exemplo, um olímpico silenciamento para não se contrariar a ideia de que o PCP é coisa de gente velha.

A experiência repetida do PCP — e reconhecida por quem segue a política com atenção — é a de que muitas das suas posições chegam ao público filtradas, simplificadas ou deturpadas. É frequente ver medidas apresentadas sem o enquadramento que lhes dá sentido, declarações isoladas do contexto ou propostas reduzidas a caricaturas.

Veja-se a condenação que o PCP fez, desde a primeira hora, da escalada do conflito na Ucrânia, com a invasão russa e quantidade de gente que viu nessa condenação um apoio às posições russas, apenas porque apelou à Paz e condenou também os EUA, a UE e a NATO por todo o conflito.

É inegável que o Partido enfrenta um grau particular de resistência na comunicação mediática. Não é preciso concordar com as suas posições para reconhecer que, muitas vezes, quando chegam ao grande público, já não são exatamente as suas.

Curiosamente, o PCP é também um dos partidos portugueses com comunicação mais coerente e previsível. Pode-se concordar ou discordar, mas sabe-se sempre onde está. O paradoxo é evidente: um partido cuja comunicação interna é das mais claras, mas cuja comunicação pública é frequentemente apresentada como “opaca” ou “desalinhada”.

Talvez a questão não seja se os comunistas sabem comunicar, mas sim se lhes é permitido fazê-lo num espaço onde a visibilidade depende, cada vez mais, de soundbites, polémica instantânea e alinhamento com a narrativa dominante.

Quando um partido insiste em defender posições estruturais, análises económicas detalhadas, propostas que não cabem em dez segundos televisivos ou que desafiam interesses instalados, o risco de ficar fora do centro mediático cresce exponencialmente. Não porque não saiba comunicar — mas porque não comunica no formato e com o conteúdo que o próprio sistema privilegia.

É como queimar um livro por não caber num tweet.

O senso comum gosta da comodidade: se a mensagem não passa, culpase o mensageiro. Mas a realidade pode ser precisamente a oposta: o mensageiro pode estar a falar claro e a mensagem pode estar a ser abafada. Não por incompetência, mas por contexto que domina os principais órgãos de comunicação social e os algoritmos das redes sociais.

No fundo, talvez a pergunta honesta não seja “porque é que os comunistas não sabem comunicar?”, mas sim: Quem tem interesse em que a comunicação do PCP não chegue às pessoas ou não chegue tal como foi feita?

João Afonso Luz – jurista