A utopia da competência

Há ideias que, à primeira vista, parecem simples, quase óbvias. Mas quanto mais nelas pensamos, mais percebemos que encerram uma exigência rara. Trabalhar com gente competente é uma dessas ideias. Parece natural, quase um dado adquirido. No entanto, na prática, torna-se uma espécie de utopia, não porque não exista, mas porque exige mais do que aquilo a que muitas vezes estamos habituados a dar.

E quando olhamos para a governação do nosso país e para os partidos políticos, essa utopia torna-se ainda mais evidente. Raramente se vislumbra essa competência de forma consistente. Falta, muitas vezes, a preparação, o sentido de responsabilidade e, sobretudo, a capacidade de ouvir e aprender. Em vez disso, assiste-se a discursos vazios, a decisões pouco sustentadas e a uma lógica de curto prazo que pouco tem a ver com aquilo que verdadeiramente serve o bem comum.

Ser competente não é apenas dominar uma função ou cumprir um conjunto de tarefas. É reunir um conjunto de qualidades que não se ensinam apenas nos livros, organização, sentido de responsabilidade, capacidade de ouvir e de agir no momento certo. É levantar-se para falar com clareza e sentar-se para ouvir com a mesma atenção. E esta última parte, tantas vezes esquecida, é talvez a mais difícil de todas.

Vivemos num tempo em que se fala muito, mas se escuta pouco. Em que se quer mostrar conhecimento, mas nem sempre se tem a humildade de o partilhar ou de o questionar. A verdadeira competência começa precisamente aí, na consciência de que ninguém sabe tudo e de que aprender não é um acto pontual, mas um processo contínuo.

Trabalhar com pessoas assim muda tudo. O ambiente transforma-se. Deixa de ser apenas um espaço de cumprimento de obrigações e passa a ser um espaço de crescimento. São pessoas que ensinam sem impor, que aprendem sem receio, que estimulam quem está ao lado e que sabem quando devem aproximar-se e quando devem dar espaço. Não é apenas trabalho, é construção

Há também uma ideia essencial que distingue quem realmente percebe o valor do conhecimento, não há saberes maiores ou menores, há saberes diferentes. Cada pessoa traz consigo um percurso, uma experiência, uma forma de ver o mundo. Quando isso é respeitado, cria-se algo maior do que a soma das partes. Quando não é, perde-se uma oportunidade que dificilmente volta.

E depois há o tempo. Tudo passa, cargos, funções, estatutos. O que hoje parece fundamental amanhã pode já não ter o mesmo peso. Mas há algo que fica. Fica a forma como tratamos os outros, aquilo que partilhamos, o que ensinamos e, sobretudo, o que deixamos em cada pessoa com quem nos cruzamos. Esse é o verdadeiro legado.

Talvez por isso esta ideia de trabalhar com gente competente continue a soar a utopia. Porque implica exigência, rigor, mas também humanidade. Implica fazer bem, mas fazer bem com os outros e para os outros. E isso nem sempre é o caminho mais fácil.

Ainda assim, é o único que vale a pena.

Carlos Cardoso – gestor