Há filas de espera de centenas de famílias à espera de uma oportunidade de terem comida. Há dificuldades detetadas entre jovens casais e reformados, mas também entre aglomerados que antes da Covid e das guerras ainda conseguiam sobreviver. Carências afetam portugueses e estrangeiros e só os donativos vão impedindo situações extremas.
Há cada vez mais pessoas mais pessoas a sofrer privações alimentares nos nove concelhos da Península de Setúbal. A conclusão é dos núcleos locais da Refood, entidade assente no voluntariado que se dedica a fazer a recolha de alimentos para distribuir por centenas de famílias carenciadas. Ao mesmo tempo que aumenta a fome, diminuem os donativos. Casais jovens, reformados e desempregados encabeçam a lista das pessoas em maiores dificuldades.
“A situação é grave e tem vindo a piorar nos últimos anos”, diz Maria Helena, uma das coordenadoras do núcleo da Refood de Setúbal. “Neste momento estamos a ajudar com cabazes distribuídos uma vez por semana um total de 60 famílias, o que equivale a 160 pessoas, das quais 60 são crianças. É um número elevado e que exige muita dedicação e que, infelizmente, não reflete na totalidade o número de carenciados. Só no nosso núcleo temos mais 12 famílias em lista de espera. À espera que lhes possamos fornecer comida”, afirma.
A lista de espera de Setúbal não é, no entanto, nem de longe nem de perto igual à do Barreiro. Neste concelho, conforme explicou ao Semmais a responsável Clara Gonçalves, para além de 195 famílias que se encontram a receber auxílo semanal, há ainda mais 120 à espera de poderem vir a benefi – ciar da comida recolhida pelos volutários.
“O que temos no Barreiro é um pouco o que se passa no resto do país: Temos 120 voluntários que recolhem alimentos cozinhados em superfícies comerciais, mas também em restaurantes, mercearias, etc e que as ajudam a distribuir diariamente por grupos de 34 ou 35 famílias”, diz Clara Gonçalves, lembrando que, tal como acontece no concelho de Setúbal, também ali são cada vez maiores as dificuldades em conseguir donativos. “O Estado deveria olhar de outro modo para o trabalho que organizações como a Refood, que trabalham em regime exclusivo de voluntariado mas que têm de pagar contas mensais para poderem continuar a ajudar quem mais precisa”, acrescenta.
Andam ao cartão para pagar as contas
Pagar contas é, pois, uma das prioridades dos núcleos da Refood no distrito. Existem casos quase caricatos como os verificados em Corroios, no concelho do Seixal, Almada ou Alcochete. Ali, de acordo com os seus responsáveis, traçou-se a chamada “Rota do Cartão”, tarefa que consiste precisamente em recolher cartão que depois é vendido e cujas receitas servem para pagar despesas.
“Sim, vendemos papel à Amarsul. Foi o modo que encontrámos para financiar as nossas despesas. A Amarsul paga-nos 100 euros por tonelada de papel e, só no ano passado, vendemos mais de 40 toneladas”, explica a coordenadora de Corroios, Isabel Carvalho.
Em Almada, que é o núcleo do país com mais voluntários (são atualmente 400 pessoas que, mesmo assim, não são sufi cientes para todas as tarefas), a recolha de papel atingiu no ano passado as 65 toneladas. Um contributo de vulto que ajudou a pagar os 300 euros de renda mensal das instalações alugadas pela câmara municipal, no Laranjeiro, que tem servido para abastecer de combustível as três viaturas e fundamental para adquirir os equipamentos onde se vão guardando os alimentos recolhidos. “Só no ano passado foram 325 toneladas, que acabámos por distribuir por 165 famílias, o que perfaz 481 pessoas, das quais 157 são crianças e adolescentes”, refere Inês Martins, coordenadora local.
Noutros núcleos, como o do Barreiro, as contas são pagas através dos donativos que vão chegando. “Há donativos, existem mecenas e também vamos às feiras tentar fazer receita”, conta Clara Gonçalves para ajudar a explicar como a estrutura a que pertence paga mensalmente cerca de 400 euros de eletricidade, renda do armazém e combustível para as viaturas utilizadas.
Cada português desperdiça 180 quilos de comida por ano

O americano Hunter Halder é o rosto visível da Refood. Foi ele, em 2011, quem começou a dinamizar os núcleos que aos poucos foram surgindo em todo o país. Hoje são 70, mas, como lembrou em declarações ao nosso jornal, acabam por ser poucos tendo em conta que existem quase 3.100 freguesias. “Combater desperdício alimentar é algo que está nas nossas mãos. Não devemos esquecer que nas grandes superfícies, como sejam os supermercados ou restaurantes, mesmo que a comida não vendida perca valor comercial, não deixa de possuir valor nutritivo, e esse é fundamental para muitos milhares de pessoas carenciadas”, diz.
Hunter Halder acrescenta que há cada vez um maior número de pessoas carenciadas e cujas dificuldades poderiam ser minoradas caso existisse um melhor aproveitamento alimentar. “Em média cada pessoa deita fora, por ano, cerca de 180 quilos de comida. Recolhe-la e distribuí-la por quem mais precisa seria um passo importante para ajudar os que vivem num estado de pobreza crónica, mas também para os refugiados e… gente muito bem vestida”.
Por gente “bem vestida” entende-se que são muitos daqueles que, por vergonha, ainda não reconhecem publicamente as dificuldades que atravessam.
“Tive uma senhora num prédio que não queria que se soubesse. Durante mais de um ano deixávamos-lhe a comida num alguidar, num sítio mais escondido. Só muito mais tarde ganhou coragem para aparecer num local de distribuição. Disse que estava cansada de esconder a pobreza”, conta.






