Ao ouvir os nossos governantes e muitos dos nossos políticos falar, fico cada vez mais convencido de que existe um enorme afastamento entre o país oficial e o país real. Há o Portugal dos discursos, das conferências de imprensa e das inaugurações cheias de frases bonitas. E depois existe o Portugal das pessoas comuns, que todos os dias enfrentam dificuldades, burocracias, atrasos e a sensação constante de abandono.
Nos discursos políticos, Portugal está sempre a crescer. A economia está sólida, os indicadores são positivos, o desemprego está controlado e tudo parece funcionar graças à visão e à capacidade dos sucessivos governos. Quem os ouve falar quase acredita que vivemos num país moderno, preparado e efi ciente, onde os problemas aparecem mas são rapidamente resolvidos pela competência dos que nos governam.
O problema é que a realidade desmente diariamente essa narrativa.
O que verdadeiramente existe é um país do “faz de conta”.
Faz de conta que há planeamento. Faz de conta que há estratégia. Faz de conta que os serviços funcionam. Faz de conta que existe capacidade de resposta.
Entrámos em 2026 a ouvir promessas de crescimento económico, de melhorias para as famílias e de mais qualidade de vida. Ainda nem chegámos ao meio do ano e bastou uma tempestade para expor todas as fragilidades de um sistema que vive mais da propaganda do que da efi cácia. Bastou cair chuva mais intensa, bastou o vento arrancar telhados e derrubar árvores, para se perceber que o país continua sem preparação para enfrentar situações mínimas que deviam estar previstas há muitos anos.
O mais revoltante é perceber que, perante problemas relativamente simples, o Estado parece entrar em bloqueio. Um pequeno deslizamento de terras, casas destelhadas ou estradas danifi cadas tornam-se processos intermináveis onde ninguém decide nada e ninguém assume responsabilidades. Aquilo que deveria ser uma resposta rápida transforma-se num desfile de burocracias, pareceres e reuniões.
Nisso, os políticos são especialistas.
Quando surge um problema, cria-se imediatamente uma comissão, um grupo de acompanhamento ou uma estrutura de avaliação. Fazem-se visitas ao local, tiramse fotografias, fazem-se declarações para as televisões e promete-se que tudo será analisado. Depois começa o jogo habitual do empurra.
A responsabilidade passa do governo para as câmaras. Das câmaras para a Protecção Civil. Da Protecção Civil para os seguros. Dos seguros para outros organismos
E no meio disto tudo ficam as pessoas, muitas vezes sem respostas, sem apoio e sem saber a quem recorrer.
Esta semana ouvi o Ministro da Administração Interna afi rmar que os incêndios deste ano poderão ser mais difíceis porque existem milhões de árvores caídas no chão devido aos temporais. Ou seja, os fogos ainda nem começaram e já está preparado o argumento para justificar aquilo que poderá falhar. É a política da antecipação da desculpa. Em vez de se resolver o problema, prepara-se a narrativa para explicar porque não foi resolvido.
E é precisamente aqui que muitos políticos mostram a sua maior habilidade: não em resolver problemas, mas em gerir discursos.
Criam explicações antes das falhas acontecerem.
Preparam justificações antes das responsabilidades surgirem.
E tentam convencer o povo de que tudo o que corre mal é inevitável.
Enquanto isso, as pessoas continuam a trabalhar, a pagar impostos, a suportar aumentos e a viver cada vez com menos confi ança no futuro. O cidadão comum sente diariamente o peso de um país lento, burocrático e pouco efi caz. Mas quem vive dentro da máquina política parece continuar protegido dessa realidade.
Por isso, cada vez mais acredito que vivemos num país de faz de conta. Um país onde se anuncia muito e se concretiza pouco. Um país onde os discursos crescem na mesma proporção em que a confiança das pessoas diminui.
Porque no final, para os políticos, muitas contas são apenas números e estatísticas. Mas para quem vive do seu trabalho e tenta sobreviver com dignidade, essas contas são bem reais todos os dias.
Carlos Cardoso – gestor



