O diretor regional do ICNF, Carlos Albuquerque, faz um balanço positivo do percurso, mas alerta para os desafios que persistem na conservação deste território e defende um compromisso renovado com a sua preservação.
A história do Parque Natural da Arrábida (PNA) começou antes da sua criação ofi cial, em 1976. A necessidade de proteger a serra motivou, ainda em 1971, a constituição da Reserva Florestal da Arrábida, num processo que viria a culminar com a classifi cação da área protegida. Mais tarde, em 1998, a criação do Parque Marinho Professor Luiz Saldanha e a integração da área terrestre até ao Cabo Espichel defi niram os limites atuais do parque.
Para Carlos Albuquerque, diretor regional de Lisboa e Vale do Tejo do ICNF, estas cinco décadas demonstram que a conservação da natureza pode ser um motor de desenvolvimento. “O PNA é um excelente exemplo de como uma área natural protegida consegue sustentar e promover um desenvolvimento equilibrado, assente na proteção e valorização dos ecossistemas e da biodiversidade”, afi rma em declarações ao Semmais.
O responsável considera que a preservação da Arrábida permitiu criar uma imagem de qualidade para toda a região, valorizando o património paisagístico e turístico dos concelhos de Setúbal, Sesimbra e Palmela. “A Arrábida foi sendo salvaguardada das destruições e degradações que crescem um pouco por todo o lado e tornou-se um símbolo da região”, sublinha, lembrando também o reconhecimento internacional da UNESCO, que classifi cou este território como Reserva da Biosfera.
Carlos Albuquerque destaca ainda que o sucesso da conservação resulta de um esforço coletivo. Atualmente, a gestão do parque é coordenada pelo ICNF, em articulação com os três municípios e diversas entidades públicas e privadas. Acresce que apenas cerca de 3% da área do Parque Natural pertence ao Estado, pelo que a preservação depende, em larga medida, da colaboração dos proprietários privados, das autarquias, das associações e da sociedade civil.
As comemorações dos 50 anos refletem esse espírito de participação. O programa inclui um fórum comemorativo, realizado ontem, o lançamento de um livro de homenagem às cinco décadas de história do parque e vários momentos culturais, entre os quais um espetáculo musical dedicado à paz e um recital de poesia. Seguem-se um workshop sobre ética e conservação da natureza nas atividades de montanha, caminhadas interpretativas, percursos guiados e atividades abertas ao público no Museu Oceanográfi co e no Parque Ambiental do Alambre.
Futuro passa pela conservação e uso sustentável
Apesar do balanço positivo, Carlos Albuquerque considera que o maior desafi o continua a ser garantir o equilíbrio entre a proteção da natureza e a crescente utilização do território. “A manutenção da qualidade ambiental e da paisagem da Arrábida é fundamental”, afirma.
O responsável recorda também que a serra desempenha funções essenciais na regulação da água e do clima da região, favorecendo a infi ltração da água nos aquíferos, reduzindo a erosão dos solos e contribuindo para armazenar carbono e moderar as temperaturas locais. “O principal desafio é manter este equilíbrio, muitas vezes instável, entre a preservação do espaço natural e a regulação do espaço humanizado”, sustenta.
O ICNF pretende, por isso, aproveitar os programas nacionais de restauro da natureza para reforçar a recuperação de ecossistemas terrestres e marinhos na Arrábida, uma aposta que poderá também criar emprego especializado. Paralelamente, defende o desenvolvimento de uma estratégia de Economia Azul Sustentável para a região Sado-Arrábida, baseada em atividades inovadoras e não extrativas.
E tem havido grande investimento ao nível de meios, como embarcações para o parque marinho e viaturas de fiscalização. Além da implementação do curso LIFE RestoreSeaGrass, dedicado às pradarias do Parque Luís Saldanha e do aumento da equipa de vigilantes da natureza, que ocorreu neste último ano.
A pressão turística continua igualmente no centro das preocupações. Carlos Albuquerque reconhece que é precisamente a elevada qualidade ambiental da Arrábida que atrai milhares de visitantes todos os anos, mas alerta que “é quando a elevada procura de atividades e de usufruto do território ameaça degradar o seu suporte que os problemas acontecem”. Nesse contexto, considera essenciais as regras de utilização da área protegida e o trabalho desenvolvido pelos municípios de Setúbal, Sesimbra e Palmela.
Entre os problemas mais preocupantes aponta a dificuldade em garantir o cumprimento das regras de navegação e fundeação no Parque Marinho Professor Luiz Saldanha e o crescimento exponencial das embarcações motorizadas. Segundo o director geral do ICNF, esta realidade tem impactos significativos sobre espécies como os golfi nhos do Sado e sobre os ecossistemas marinhos da costa entre Setúbal, o Portinho da Arrábida e o Cabo Espichel.
No fundo, o responsável defende que o futuro da Arrábida dependerá também da participação dos cidadãos. O voluntariado, a ciência cidadã, a educação ambiental e o envolvimento das comunidades locais continuam, na sua perspetiva, a ser determinantes para preservar um território cuja história foi construída precisamente pela mobilização da sociedade.
Património comum e um grande exemplo inspirador
Carlos Albuquerque deixa uma mensagem dirigida aos visitantes e à população, como um apelo à responsabilidade coletiva: “O Parque Natural da Arrábida constitui um património comum, pertencente a todos e destinado ao benefício de todos”, afirma. O objetivo, segundo a tutela do PNA, é garantir que a Arrábida continue a afi rmar-se “como um exemplo inspirador de conciliação entre conservação da natureza e desenvolvimento, funcionando como um motor de progresso equilibrado, sustentável e gerador de bem-estar para toda a região”.






