Eugénio Fonseca, a voz dos que não tinham voz

Há pessoas que passam pela nossa vida. E há outras que, de alguma maneira, passam a fazer parte dela. Eugénio Fonseca foi, para mim, uma dessas pessoas.

Conheci-o nos anos 80, quando dava os primeiros passos na atividade jornalística. Já havia nele uma característica que o tempo apenas haveria de acentuar: uma enorme capacidade de olhar para os outros; para aqueles que a sociedade tantas vezes prefere não ver.

A nossa relação foi crescendo ao longo dos anos, feita de encontros, conversas, divergências, cumplicidades e, acima de tudo, de uma estima e admiração mútuas que o tempo nunca apagou. Estivemos juntos em muitas causas sociais, em muitos debates e em muitas lutas. Falámos longamente sobre a Igreja e sobre a sociedade, sobre a pobreza, as desigualdades, a justiça e a responsabilidade que cada um de nós tem perante os outros.

Eugénio tinha uma qualidade rara: não se limitava a falar dos problemas. Fazia. Organizava. Mobilizava. Procurava respostas. E, sobretudo, sabia sentir o pulsar daqueles que mais precisavam.

Foi essa capacidade de estar próximo dos mais frágeis que marcou profundamente o seu percurso na Cáritas. Sob a sua liderança, a instituição ganhou dimensão, peso e influência. Mas ganhou, sobretudo, voz, que não se limitava a denunciar a pobreza, mas que procurava combatê-la, encontrando respostas concretas para pessoas concretas.

Essa intervenção nem sempre foi pacífica. Eugénio não era homem para se acomodar, nem para aceitar silenciosamente aquilo que considerava injusto ou errado. E, talvez por isso, nem sempre terá sido devidamente acarinhado ou compreendido por alguns setores da própria Igreja sadina. Mas nunca deixou que essas dificuldades lhe retirassem a determinação. A sua lealdade estava, antes de mais, com as pessoas e com as causas em que acreditava.

Havia, aliás, uma referência que nos aproximava particularmente: D. Manuel Martins. Partilhávamos uma profunda estima por aquele que foi, para muitos de nós, muito mais do que o primeiro bispo de Setúbal. D. Manuel foi uma referência moral, cívica e humana. E Eugénio foi um dos homens que melhor compreenderam que a mensagem de uma Igreja ao serviço dos pobres não podia ficar confinada às palavras.

Talvez por isso tantas das nossas conversas acabassem por regressar a D. Manuel. À Igreja que sonhou. À sociedade que quis transformar. À responsabilidade de não ficarmos indiferentes perante a injustiça.

Também o Semmais fez parte desta relação. Eugénio foi sempre um amigo e um colaborador deste jornal. Foi leitor fiel, mas foi também participante ativo, através dos seus textos de opinião, das suas reflexões e da disponibilidade permanente para discutir ideias e ajudar a pensar a região e o país.

Eugénio Fonseca tinha ainda outra qualidade que sempre admirei: a capacidade de juntar pensamento e ação. Podia discutir durante horas sobre a Igreja, a política social, os modelos de intervenção ou as responsabilidades do Estado, mas nunca perdia de vista a pessoa que estava diante dele. Aquele homem ou aquela mulher que precisava de ajuda. A família que não tinha dinheiro para pagar a renda. A criança que não tinha condições para crescer com dignidade. O idoso que vivia sozinho. O migrante que procurava uma oportunidade.

Era aí que Eugénio encontrava o sentido das coisas.

Por isso, a sua morte deixa um vazio que ultrapassa a dimensão pessoal. Setúbal perde uma das suas grandes referências na área social. A Cáritas perde o homem que durante tantos anos lhe deu rosto, força e capacidade de intervenção. A Igreja perde uma voz crítica e incómoda, mas profundamente comprometida. E nós, os que tivemos o privilégio de conviver com ele, perdemos um amigo.

No meu caso, perco também uma presença que acompanhou praticamente toda a minha vida profissional. Desde aqueles primeiros tempos do jornalismo, nos anos 80, até aos dias de hoje, foram décadas de conversas, encontros, discussões e causas partilhadas.

Eugénio Fonseca deixa-nos essa herança: a de um homem que nunca perdeu a capacidade de se indignar, mas que soube transformar a indignação em ação; a de alguém que conheceu o poder, mas nunca deixou que o poder o afastasse dos que nada tinham; a de um cristão que procurou viver a sua fé não apenas nos templos, mas sobretudo na rua, ao lado dos mais pobres e dos mais esquecidos.

É por isso que a melhor homenagem que lhe podemos fazer talvez seja continuar a ouvir aquilo que ele sempre ouviu: o pulsar dos que não têm voz.

E continuar a fazer aquilo que ele fez durante toda a vida: não passar indiferentes.