Há momentos em que a permanência de uma pessoa num cargo deixa de ser apenas uma questão pessoal ou política. Passa a ser uma questão de autoridade, de credibilidade e, sobretudo, de ética pública.
O caso de Luís Neves está a arrastar para uma espécie de lama institucional a Polícia Judiciária, o Governo e a própria tutela. Não porque esteja em causa a presunção de inocência ou o direito de cada cidadão à defesa. Está em causa outra coisa: a necessidade de preservar a confiança nas instituições e a aparência de independência e de exigência ética de quem as dirige.
Quando as dúvidas se acumulam e o escrutínio público aumenta, a insistência em manter tudo como se nada acontecesse transmite uma mensagem perigosa: a de que, em política, quase tudo pode ser relativizado, desde que se tenha poder suficiente para sobreviver ao desgaste.
Mais grave é quando essa normalização da antiética parece encontrar a sua própria chancela no primeiro-ministro. E aqui não é possível ignorar o precedente do caso Spinumviva, que colocou António Luís Montenegro no centro de uma polémica em torno da transparência e dos conflitos de interesses.
Não se trata de fazer julgamentos antecipados. Trata-se de reconhecer que a ética republicana não começa nem acaba naquilo que é estritamente ilegal. Há comportamentos que podem ser legais e, ainda assim, politicamente inadequados. E há situações em que a simples dúvida, pela natureza dos cargos envolvidos, já deveria recomendar prudência, esclarecimento e, se necessário, afastamento.
A democracia não se degrada apenas quando alguém viola a lei. Também se desgasta quando aqueles que têm a responsabilidade de dar o exemplo começam a convencer os cidadãos de que a ética é uma questão secundária.
E essa é, talvez, a parte mais preocupante desta história: a lama não fica apenas em quem nela entra. Pode acabar por atingir a própria instituição.



