Esta é apenas a minha opinião. É apenas a visão de um cidadão que olha para o país onde vive e que, cada vez mais, sente que Portugal se está a dividir em dois.
Existe o país real. O dos portugueses que acordam cedo para trabalhar, que enfrentam dificuldades, que educam os filhos, que pagam impostos e que sabem que a vida se faz de esforço, responsabilidade e resiliência. É um país onde os problemas existem, mas onde se procura resolvê-los em vez de os transformar num espetáculo.
Depois existe outro país. O da política-espetáculo, da indignação permanente e do escândalo fabricado. Um país onde qualquer erro é imediatamente apresentado como uma tragédia nacional, onde qualquer falha passa a ser prova de incompetência absoluta e onde o importante já não é resolver os problemas, mas sim descobrir quem pode ser politicamente abatido.
A mais recente polémica em torno da divulgação das classificações dos exames nacionais é apenas mais um exemplo desta forma de fazer política e de alimentar o espaço mediático. Em vez de se exigir rapidez na resolução do problema e serenidade na análise dos factos, assistimos a uma corrida desenfreada para encontrar culpados, fazer acusações e transformar um episódio grave num palco de combate político. O erro deve ser apurado, as responsabilidades devem ser assumidas e as consequências retiradas. Mas entre exigir responsabilidade e transformar tudo num circo mediático vai uma enorme diferença.
Parece que já ninguém admite que um sistema complexo possa falhar sem que isso signifique o colapso do Estado. Parece que já ninguém distingue um erro de uma conspiração ou de uma incompetência generalizada. O exagero tornou-se a regra, porque o exagero gera audiências, alimenta as redes sociais e rende votos.
Entretanto, os comentadores profissionais ocupam horas de televisão a amplificar indignações, muitas vezes desligadas da realidade vivida pelos portugueses. Quem vive no país real sabe que os problemas se resolvem com competência, trabalho e sentido de responsabilidade. Não se resolvem com conferências de imprensa sucessivas, debates inflamados ou julgamentos populares feitos antes de se conhecerem todos os factos.
O que verdadeiramente me preocupa não é o erro. Quem exerce funções públicas pode errar, como qualquer cidadão ou qualquer empresa. O que me preocupa é a incapacidade crescente de distinguir um erro de uma catástrofe, uma falha de um fracasso absoluto. Esta cultura da destruição permanente corrói a confiança nas instituições e afasta aqueles que poderiam colocar a sua competência ao serviço do país.
Pergunto-me quantas pessoas verdadeiramente qualificadas estarão hoje disponíveis para aceitar responsabilidades públicas, sabendo que qualquer falha, por menor que seja, será explorada até ao limite, independentemente da sua dimensão ou das soluções entretanto encontradas.
Uma democracia forte não é aquela que vive em permanente estado de guerra política. É aquela que fiscaliza, exige responsabilidades, corrige os erros e segue em frente. A democracia enfraquece quando troca a verdade pelo espetáculo, quando transforma cada contratempo numa crise de regime e quando parece desejar mais a queda de quem governa do que a resolução dos problemas dos portugueses.
Tenho a convicção de que o país real está cansado deste clima de conflito permanente. Os cidadãos querem instituições que funcionem, governantes competentes, oposição responsável e comunicação pública que informe em vez de incendiar.
Portugal precisa de menos atores e de mais servidores públicos. Precisa de menos indignação fabricada e de mais soluções. Porque um país não se constrói à custa do descrédito permanente das suas instituições. Constrói-se com exigência, responsabilidade, bom senso e capacidade de aprender com os erros.
Enquanto continuarmos a transformar cada dificuldade numa oportunidade para destruir em vez de construir, estaremos condenados a desperdiçar energias naquilo que menos interessa. E assim, por muito que mudem os protagonistas, continuaremos a caminhar sem rumo. Assim, não vamos a lado nenhum.
Carlos Cardoso – gestor



