Três candidaturas, uma região

Há qualquer coisa de paradoxal em termos, na Península, três candidaturas à Capital Portuguesa da Cultura 2028 quando a região acaba de dar passos importantes para se afi rmar como território comum.

Almada, Barreiro e Setúbal têm identidades culturais próprias, argumentos fortes e toda a legitimidade para apresentarem as suas candidaturas. A questão não está aí. Está na oportunidade que se perde quando aquilo que poderia ser uma afi rmação cultural da Península acaba reduzido a três projetos municipais concorrentes.

E o paradoxo é maior porque hoje existem instrumentos para fazer diferente.

A criação da CIM da Península de Setúbal veio precisamente responder à necessidade de ganhar escala, reforçar a coesão territorial e afi rmar uma estratégia comum para os nove municípios. E a AMRS, mesmo que tenha perdido força e, se calhar, objetivos, tem décadas de trabalho intermunicipal, e uma experiência acumulada na promoção cultural, na cooperação entre municípios e na valorização do território.

É obsessão minha, ou seria, por isso, legítimo esperar que também na cultura estas estruturas pudessem ter desempenhado um papel agregador.

Não se trata de defender que os municípios abdicassem das suas identidades. Pelo contrário. Uma candidatura regional poderia precisamente ter mostrado que a força da Península está na sua diversidade: o Tejo e o Sado, o património industrial e marítimo, a criação contemporânea, o movimento associativo, o teatro, a música, as artes visuais, o património e uma comunidade artística que não conhece as fronteiras administrativas.

Almada não deixa de ser Almada por fazer cultura com o Barreiro. O Barreiro não perde a sua identidade por trabalhar com Setúbal. E Setúbal não fi ca menor por integrar uma programação cultural pensada à escala da Península.

O problema é que continuamos muitas vezes a pensar regionalmente quando reivindicamos investimentos e fundos europeus, mas municipalmente quando chega a hora de mostrar ao país aquilo que somos.

Não quero ser abusivo, mas a criação da CIM deveria servir precisamente para ultrapassar essa lógica. E a experiência da AMRS deveria ajudar a demonstrar que a cooperação intermunicipal não é uma invenção de agora.

O que estranho é que, sabendo das ideias-base que concorreram para que a CIM fosse criada. E conhecendo bem algumas das visões preconizadas pelos nossos autarcas, com Frederico Rosa à cabeça, ainda se não consiga passar – mesmo que em temas não totalmente estratégicos – das políticas locais às de dimensão regional.

As três candidaturas são legítimas. A competição pode ser saudável. E caberá ao júri decidir qual responde melhor aos critérios do concurso.

Mas talvez a verdadeira questão esteja para além de 2028.

Porque, qualquer que seja o resultado, seria um desperdício que as três candidaturas acabassem simplesmente no dia em que for anunciada a escolhida.

A Península tem aqui uma oportunidade para demonstrar que consegue transformar concorrência em cooperação.

A Capital Portuguesa da Cultura será, se vier para um dos três municípios, uma celebração de um ano. A construção de uma política cultural à escala da Península poderia ser uma conquista para muitos anos.

E talvez seja essa a discussão que deveríamos estar a ter agora.