Privados de muitos confortos e convívios ao longo do ano, os dias desta quadra não vão ser diferentes. As ceias foram servidas em kits e as prendas abertas ao ‘abrigo’ de uma solidão sem teto.
Na Praça Teófilo Braga, este ano, a habitual tenda da Cáritas de Setúbal onde se servia o almoço de Natal aos sem abrigo não foi montada, para evitar ajuntamentos, mas as refeições foram distribuídas e, segundo o presidente da instituição, os utentes comeram “nas instalações ou onde desejaram”.
Para compensar a privação do momento de confraternização, o dinheiro que iria ser gasto para alugar a tenda foi investido na compra de outros bens essenciais na vida das 95 pessoas do concelho que, sem teto, recorrem à Caritas para ter algum conforto. “Além da refeição de Natal, tiveram à sua espera produtos de higiene pessoal, de limpeza e roupas interiores”, disse à Semmais o presidente Domingos Sousa, adiantando que, para além do número referido, existem “muitos mais” indivíduos sinalizados que “não querem ou não procuram ajuda”.
“Arrendámos cinco apartamentos que acolhem quinze pessoas acompanhadas pelo nosso pessoal, e já arrendámos outra casa para mais quatro, no âmbito do Programa “Casa Primeiro”, que arranca em 2022. No edifício na Praça Teófilo Braga alojamos mais de 16 em camaratas. É claro que é insuficiente para resolver todos os problemas à nossa volta” reconhece o mesmo responsável, afirmando ser “muito preocupante o facto de estarem a chegar à Cáritas alguns jovens, de Setúbal e arredores, em situação de sem abrigo, que estão já integrados em atividades lúdicas e culturais com o intuito de se sentirem “dignificados e, mais tarde, inseridos em programas do centro de emprego e da autarquia para que se tornem autónomos”.
Também a CASA-Centro de Apoio aos Sem Abrigo, que ampara perto de 90 pessoas no concelho sadino, se vê impedida, pelo segundo ano consecutivo, de organizar o jantar alusivo à quadra. Para contornar a situação optou pelos serviços de uma empresa de catering que, há vários anos, faz questão de oferecer a ceia de Natal a esta comunidade. Paralelamente, os voluntários da instituição preparam kits de alimentação de bacalhau com batatas e couve, um segundo prato e a sobremesa que entregaram na tarde de sexta-feira.
Instituições desdobram-se para oferecer algum conforto
Susana Marques, coordenadora da delegação de Setúbal, disse que houve também “caixas presente” que, elaboradas por várias entidades e particulares, continham “produtos de higiene, guloseimas, um produto de conforto (gorro, cachecol ou peúgas) e um postal”: “Prestamos ajuda alimentar diária, mas, nesta quadra, é importante relembrá-los que é Natal. Para nós, é um dia carregado de emoções, porque pernoitamos nas nossas casas e muitas destas pessoas dormiram algures, com frio e ao relento”, partilhou com a Semmais.
Um sentimento de impotência permanente, contudo agravado se comparado com os anos anteriores. “A grande diferença é que não podemos confraternizar com as cerca de 90 pessoas que recebem diariamente o nosso apoio, nem sentá-las à mesa”, sublinha a coordenadora, adiantando que estão registadas 120 pessoas sem abrigo no concelho, mais cerca de 30 do que as que recorrem aos apoios da instituição de domingo a sexta-feira, para ali levantarem o seu kit de alimentação ao jantar. “É um kit que permite minimamente a subsistência até ao dia seguinte”, vinca.
Desde o início da pandemia, o número de utentes da CASA “triplicou”, o que deixa Susana Marques preocupada: “São pessoas que ficaram desempregadas porque as empresas onde trabalharam faliram, e, recentemente, devido à nova variante, estão a aparecer famílias em situação muito vulnerável e alguns casos encaminhados pela Comissão de Proteção de Crianças e Jovens de Setúbal”.
Ao mesmo ritmo que aumenta o número de vulneráveis, cresce o sentimento de incapacidade de quem se dedica a ajudar o próximo, como é o caso do Grupo Desportivo da Fonte Nova, de Setúbal. Sem apoios da câmara e da junta de freguesia, este ano não realizaram o jantar de Natal. “Fiz esse evento durante 15 anos, mas, há dois anos, parámos, por causa da pandemia e da falta de apoios. Chegámos a juntar na nossa coletividade cerca de cem pessoas carenciadas. Foi mais um ano que sentimos a falta deste gesto solidário. Era uma grande festa e até oferecíamos roupas e brinquedos”, conta o presidente José Pina, manifestamente triste por “não pode ajudar quem mais necessita”.



