2024 – Um ano de défice cultural

Sem se pretender fazer um exaustivo balanço em termos culturais, ao ano de 2004, podemos contudo afi rmar, inequivocamente, que foi um ano pobre reinando a falta de visão e estratégica com vista à implementação de uma política cultural virada para os grandes desafios.

Portugal tem vindo a viver culturalmente como que sustentado por uma profunda mesquinhez de visão e estratégia, onde têm reinado um profundo cenário de virtualismo e folclore, onde tudo se faz em nome da Cultura, mas que no fundo se resume a meras terapêuticas de cosmética, de modo a não deixar nascer mais rugas no nosso tecido cultural, motivadas por regras financeiras, que têm pela cultura uma nefasta política subsidiada, colocando-a como o parente mais pobre.

A inexistência de profundas reformas no sector do Património, com vista ao financiamento de projectos de recuperação dos imóveis e o surgimento de uma política de enquadramento dos vários sectores do nosso espólio patrimonial, foram, entre muitas carências, razões mais que plausíveis para aumentar o nosso descontentamento e desagrado.

No que diz respeito à salvaguarda do património edificado, é notório um profundo alheamento e uma permanente degradação. O exemplo mais concreto é o grande número de igrejas e templos que se encontram por todo o país à mercê do vandalismo, face ao seu abandono.

Outra carência que não nos deixou alheios, foi o facto da diminuta preocupação em encetar acordos entre os vectores culturais como a Torre do Tombo, Biblioteca Nacional e Autarquias, com vista a fomentação de um intercâmbio de apoio as inúmeras bibliotecas municipais, dotando-as de infraestruturas com vista a um melhor aproveitamento das suas potencialidades como pólo de atracção da juventude e de germinação cultural, entre a comunidade e as escolas.

Com a proximidade das eleições autárquicas, novos desafios se deparam com a construção de novos equipamentos culturais e, com tal, é necessário novas orientações e estratégias, contrariando políticas erradas, mas para isso é necessário fazer das promessas proveitos e não como meras intenções eleitoralistas…

A existência de efemérides pervertidas e um constante esquecimento da nossa História, explica de forma inquestionável a ausência de verdadeiras convicções, trazendo ao de cima o autismo dos políticos pondo como marca e timbre a sua incapacidade de introspecção dos graves desafios que nos deparam.

Como militante da Cultura, penso que Portugal precisa de “novas fronteiras”, onde o saber e a formação, seja, de uma vez para sempre, pertença do próprio povo e venham a surgir como verdadeiros detonadores do seu enriquecimento.

Artur Vaz – Escritor