Uma guerra que pode sair cara a Portugal

Os Estados Unidos iniciaram recentemente, em conjunto com Israel, uma nova ofensiva contra o Irão. A justificação apresentada é a continuação do programa nuclear iraniano. Segundo Washington, em junho de 2025 apenas uma das três instalações de enriquecimento de urânio teria sido neutralizada, mantendo-se as restantes operacionais. O argumento oficial é, portanto, a prevenção de uma ameaça nuclear.

Mas a realidade internacional raramente é tão simples quanto os comunicados ofi ciais sugerem. A História ensina-nos que as guerras raramente são movidas por uma única razão. Por detrás das justificações militares surgem quase sempre interesses estratégicos e económicos mais amplos.

É impossível analisar este conflito sem olhar para a China. As tarifas comerciais impostas pelos Estados Unidos não travaram o crescimento económico chinês. Pequim manteve a sua trajetória de expansão e consolidou a sua posição como potência global. Se a via comercial não produziu os efeitos desejados, é legítimo questionar se a via energética poderá estar agora em cima da mesa como instrumento de pressão.

O Estreito de Ormuz é um dos pontos mais sensíveis do planeta. Por aquela rota marítima passa uma parte signifi cativa do petróleo mundial. A China, maior importador global de crude, apresenta uma dependência externa próxima dos 72%. Embora o Irão represente cerca de 11% das importações chinesas, aproximadamente 45% do petróleo adquirido por Pequim provém de países do Golfo, como a Arábia Saudita, o Iraque ou o Kuwait. Todos dependem, em grande medida, daquela passagem estratégica.

Uma escalada militar na região, ou mesmo a simples instabilidade prolongada, representa um risco energético sério para a China. Acresce que o Irão tem fornecido petróleo a Pequim com desconto, contornando sanções através de comércio triangular com países terceiros, muitas vezes com pagamentos liquidados em yuan. Este modelo permitiu ao Irão atenuar o impacto do isolamento ocidental e, simultaneamente, garantiu à China energia mais barata, reforçando a sua moeda e reduzindo a dependência do dólar.

Perante este enquadramento, impõe-se uma reflexão, estaremos apenas perante uma disputa nuclear ou diante de uma guerra económica com implicações globais?

As consequências não ficarão confinadas ao Médio Oriente ou à Ásia. A Europa, ainda vulnerável após sucessivas crises energéticas, poderá enfrentar novos aumentos nos preços do petróleo e do gás. E quando a energia sobe, sobe tudo, transportes, bens essenciais, produção industrial.

Portugal, pela sua forte dependência energética externa e pela estrutura frágil da sua economia, será inevitavelmente um dos países mais expostos. Importamos a maior parte da energia que consumimos. Qualquer instabilidade internacional traduz-se rapidamente em aumentos na fatura das famílias, em maiores custos para as empresas e em nova pressão inflacionista.

Não vale a pena suavizar a realidade, se o conflito se prolongar e os mercados reagirem com escalada de preços, Portugal estará entre os grandes prejudicados. Num mundo interligado, as guerras já não se medem apenas em territórios conquistados, mas no impacto que provocam nas economias mais vulneráveis.

A linha da frente pode estar longe. Mas a fatura, essa, chegará cá rapidamente.

Carlos Cardoso – gestor