Sindicato alerta para a urgência de inverter o quadro e estima que mais de 60 médicos se aposentem até 2030. O cenário da situação está perto de ser caótico.
O Sindicato dos Médicos da Zona Sul (SMZS), estrutura da Federação Nacional dos Médicos (FNAM), denuncia que cerca de 300 mil utentes estão sem médico de família no distrito, traçando um “cenário preocupante” na área da medicina geral e familiar nos cuidados de saúde primários.
Em declarações ao Semmais, o presidente do SMZS, André Gomes, destaca a situação da Unidade Local de Saúde da Arrábida como a mais crítica, com o “pior rácio” entre utentes com e sem acompanhamento médico. “Só nesta unidade, que abrange os concelhos de Palmela, Sesimbra e Setúbal, há 100 mil pessoas sem médico de família, enquanto cerca de 155 mil têm”, afirma.
Nas restantes três unidades locais de saúde do distrito, os números continuam a revelar desequilíbrios significativos. “No Arco Ribeirinho existem 93 mil utentes sem médico de família e 155 mil com; em Almada-Seixal são 63 mil sem e 320 mil com; já no Litoral Alentejano há 32 mil pessoas sem médico e 75 mil com”, detalha.
O cenário tende a agravar-se nos próximos anos. À dificuldade dade em contratar profi ssionais junta-se o envelhecimento da classe e a falta de valorização da carreira. “Estimamos que, até 2030, mais de 60 médicos se aposentem, sem contar com os que optam pelo setor privado ou pelo estrangeiro. Se esta tendência não for travada, entre 80 a 90 mil pessoas poderão fi car sem médico de família nos próximos quatro a cinco anos”, alerta.
Falhanço total na resposta pública
Para mitigar o problema, o Ministério da Saúde lançou, no final do ano passado, um concurso para contratar recém-especialistas em medicina geral e familiar, com a abertura de 142 vagas. No entanto, cerca de 60 por cento ficaram por preencher a nível nacional. Lisboa e Vale do Tejo — região onde se inserem três das ULS do distrito — registou o maior número de lugares vagos, com apenas 24 das 84 vagas ocupadas.
Para André Gomes, estes resultados refletem a falta de atratividade da carreira no SNS. “É o sinal da desvalorização de uma profissão que já foi altamente prestigiada. Não existem condições para captar jovens médicos. No distrito de Setúbal faltam 186 médicos de família e, até agora, não foram tomadas medidas eficazes para colmatar essa carência”, critica.
A ausência de médicos de família tem impacto direto no funcionamento do sistema de saúde, aumentando a pressão sobre os hospitais. “Sem acompanhamento regular, os utentes não seguem devidamente terapêuticas nem fazem vigilância das suas patologias, o que contribui para o agravamento de doenças e o aumento de situações graves, como AVC, enfartes, cegueira por diabetes ou amputações. Muitas pessoas recorrem às urgências por problemas que poderiam ser resolvidos nos cuidados primários ou chegam já em estado avançado de doença”, explica.
As dificuldades estendem-se ao acompanhamento de grávidas, num contexto já fragilizado pelo funcionamento irregular das urgências de obstetrícia e ginecologia. “Há muitas grávidas sem consulta de seguimento, por não terem médico de família, e com dificuldades no acesso a exames como ecografias. Isso impede um acompanhamento adequado e a realização atempada de rastreios, com riscos acrescidos para mães e bebés”, sublinha.
Ainda assim, o responsável considera que é possível inverter o atual quadro, defendendo a abertura ao diálogo com o Governo. “As soluções são conhecidas e não implicam um grande impacto orçamental: reposição das 35 horas semanais, bancos de urgência de 12 horas, integração dos médicos internos na carreira e retoma do regime de dedicação exclusiva”, conclui.






