“Viagem de Inverno”, da Nobel da Literatura Elfriede Jelinek, sobe à cena esta sexta-feira, 24 de janeiro, pela Companhia de Teatro de Almada (CTA), com encenação de Nuno Carinhas, numa tripla estreia.
TEXTO REDAÇÃO IMAGEM DR
A sala experimental do Teatro Municipal Joaquim Benite, em Almada, é o palco da representação da peça da autora austríaca, Prémio Nobel da Literatura em 2004, que toma por referência o ciclo de canções de Franz Schubert e dos poemas de Wilhelm Müller, que lhe estão na base, e dos quais emerge o texto, desdobra-se o pensamento da escritora e a ação da obra.
A montagem da obra teatral é uma tripla estreia para o criativo Nuno Carinha, já que é a primeira vez que dirige um texto de Jelinek, que trabalha com as três atrizes em cena – Ana Cris, Flávia Gusmão e Teresa Gafeira – e também com a companhia sediada no teatro municipal, onde o encenador já apresentou outras peças, mas com diferentes estruturas artísticas.
A encenação de “Viagem de Inverno” resultou de um desafio lançado por Teresa Gafeira – que regressa à interpretação quatro anos depois do último trabalho – a Nuno Carinhas.
“Queria ficar, mas uma pessoa não pode repetir-se, como a história ou o tempo, ambos nunca se repetem, é admirável (…)” assim começa a viagem, protagonizada por três atrizes premiadas e agora dirigidas pelo encenador, cenógrafo e figurinista que, entre 2009 e 2018, assumiu a direção artística do Teatro Nacional S. João, no Porto.
Nas palavras do criativo, “o texto tanto pode ser para três atrizes, como para 30, já que não há indicações nenhumas da parte da autora quanto ao número de intérpretes. É uma voz desdobrada, já que não há propriamente personagens, mas a vontade de partilhar os textos que se vão desenvolvendo”.
Na obra teatral, segundo Nuno Carinhas, “não existe padronização de personagens, de didascálias, ou de espaço cénico, que permitam antecipar uma estratégia de construção, e a encenação foi feita sem preconceitos, em conjunto com as atrizes. Está tudo baseado no discurso. Tudo baseado nas palavras”.
Num texto em que as vinte e quatro canções do ciclo “Viagem de Inverno”, de Wilhelm Müller e Franz Schubert, são som de memória, “reminiscência a soar numa noite fria e selvagem de Inverno”, como escreve a CTA numa introdução à peça, o trabalho de Nuno Carinhas teve como “primeira prioridade aquilo que se diz”.
Nesta viagem, Jelinek usa o Inverno como metáfora dos infernos contemporâneos. Uma viagem interior, em que revisita a sua biografia, em que caminha dentro de si mesma, no seu isolamento e na estranheza que lhe provoca a época atual, ao mesmo tempo que vai evocando paisagens humanas desoladoras, que todos reconhecem.
Jelinek faz de “Viagem de Inverno” um texto contínuo e descontínuo, um texto denso que funciona como um murro no estômago; um texto que versa “sobre o tempo e a memória, e que é também uma crítica sagaz à ausência da memória ou à perda da memória”, diz Nuno Carinhas.
“Viagem de Inverno”, com encenação, figurinos e cenografia de Nuno Carinhas e desenho de luz de Nuno Meira, fica em cena até 23 de fevereiro, com representações de quinta-feira a domingo.



