Proximidade com Espanha e migrações assombram concelhos alentejanos

Os concelhos de Serpa e de Castelo de Vide lamentam que a falta de respeito pelas indicações das autoridades continue a aumentar o risco de contágio no interior alentejano.

Depois de ter sido confirmado um caso de infecção pelo novo coronavírus no Lar de Idosos de Ficalho, no concelho de Serpa, todos os funcionários da instituição foram testados. Duas funcionárias são casadas com cidadãos espanhóis. A proximidade com Espanha é uma das causas apontadas pelo “foco infecioso” na freguesia. Até ao final do dia de quarta-feira estavam confirmados “cinco testes positivos, quatro em Vila Verde de Ficalho e um em Serpa”, confirma Tomé Pires, presidente da autarquia de Serpa, em declarações ao Público.

E nem os blocos de betão colocados pelo município, na fronteira entre Portugal e Espanha, têm impedido a circulação de pessoas, que continua a acontecer por um caminho alternativo.  A Câmara Municipal de Serpa já abriu uma vala e colocou traves metálicas para impedir os movimentos nesse novo itinerário, contando com o apoio do lado espanhol, que colocará um “contentor metálico” com a mesma finalidade.

A utente, de 80 anos, infetada no Lar de Idosos de Ficalho foi transferida para o hospital de Beja, a fim de receber tratamento. Pessoal médico deslocou-se ao lar para realizar testes a todos os utentes e trabalhadores da instituição. A funcionária, que se acredita ter sido o primeiro elo na cadeia de contágio, contaminou o parceiro. Estão agora a ser testados também os irmãos, irmãs e sobrinhos da funcionária. O médico destacado no centro de saúde também está isolado pela suspeita de contacto com um dos infectados.

Em Castelo de Vide, a situação tem sido idêntica, com vários cidadãos provenientes de Espanha a circularem no concelho e a abastecerem-se no comércio local. Mas esse não é o único problema. “Nos últimos dias viajaram até aqui cidadãos nacionais sem residência permanente no concelho”, revela António Pita, presidente do município.

Face à “impossibilidade de criar uma redoma impenetrável em volta do concelho”, o autarca apela ao isolamento total dos seus munícipes e pede que não se deixem afetar por “valores e princípios” ao ponto de “criar situações de hostilidade e de repulsa verbal, nas redes sociais ou por qualquer outra forma, entre pessoas e países”. António Pita recorda também a situação espanhola, em que as terras do interior foram infetadas por habitantes de Madrid e dos grandes centros urbanos.

Apesar de estar localizada apenas a 15 quilómetros da povoação espanhola de Valência de Alcântara, onde foram registados 41 infetados e quatro mortos até quarta-feira, o presidente da Junta de Freguesia de Póvoa e Meadas, António Simão, considera as pessoas provenientes de Lisboa e Setúbal como aquelas que geram mais tumultos entre a população residente. “Crava-se cá tudo e dão cabo do ambiente porque não têm cuidado nenhum com os que cá estão. Chegam a vir de noite para ninguém os ver”, lamenta António Simão.

O autarca assume meter “de quarentena” os visitantes como forma de proteger os muitos idosos do concelho, deixando o apelo a todos para que “não visitem a aldeia no período da Páscoa” como, aliás, já tinha feito a autarquia de Castelo de Vide.