Onda da solidariedade ‘invade’ Igreja Nª Senhora da Conceição

Começou com apelo nas redes sociais e levou até aos salões da Igreja de Setúbal, em S. Sebastião, centenas de oferendas com destino à Ucrânia. O padre Constantino Alves, fala de “adesão espantosa”.

A fuga da guerra provocada pela invasão Russa à Ucrânia, deixou famílias sem teto, sem bens e sem meios de sobrevivência, mas também gerou uma onda de solidariedade mundial à qual a comunidade do distrito não ficou indiferente. A ação social faz parte do dia a dia da Igreja Paroquial de Nossa Senhora da Conceição de Setúbal que, desta vez, abriu portar para ‘estender a mão’ às centenas de milhares ucranianos que se encontram refugiados nos países vizinhos do leste da Europa.

Foi nas redes sociais que o apelo foi lançado e, em dois dias, muitas foram as pessoas que se deslocaram à paroquia para doar alimentos, roupas e medicamentos, num gesto humanitário que, praticamente, esgotou o espaço reservado para a iniciativa.

“A adesão foi espantosa, nunca imaginei que fosse assim. São dezenas e dezenas de pessoas que trazem tudo o que foi solicitado. Veem com alegria, mas também com pesar interior e tristeza, algumas nem conseguem falar. Temos também uma equipa de voluntários organizada porque foram perguntando: ‘precisa de voluntários?’, e têm vindo sempre para fazer a triagem do que chega”, diz ao Semmais o Padre Constantino Alves, enquanto vai coordenado a ação que resultou do pedido de ajuda que chegou através da Igreja Ortodoxa e de uma associação ucraniana sedeada em Alcochete.

Num outro canto da sala, a voluntária Maria Luísa Soares faz referência ao facto de “apesar de dizerem que Setúbal é uma cidade pobre, tem contribuído muito”. Em tom de desabafo conta a história de uma senhora que, por “não poder ter filhos, doou roupa nova e alimentos de bebés: “Fiquei arrepiada e com um nó na garganta.

 

Frenesim dos voluntários, muita emoção e simbolismo

Enquanto os voluntários empacotam e etiquetam as caixas dos donativos, vimos um chapéu com a bandeira com as cores azul e amarelo ao fundo da rua. Era Liliana, uma cidadã com dupla nacionalidade, portuguesa e ucraniana, que se dirigia à igreja com a família para ajudar e presenciar a iniciativa de um distrito que está de mãos dadas com a sua terra Natal. Em lágrimas, disse que “não esperava em tão pouco tempo” a angariação de tantos bens e sublinhou a “união” e o “terem escutado os gritos” do seu povo.

Quem também se uniu ao projeto foi a Casa do Gaiato. Enquanto a nossa equipa de reportagem esteve na paróquia, a instituição entregou uma quantia tão avultada de caixas, que, sozinhas, quase ocuparam o espaço da carrinha dos Bombeiros de Alcochete que estava a transportar as doações para um pavilhão disponibilizado pelo Comandante do Corpo de Bombeiros do município.

Daqui, depois de traduzidas para ucraniano e inglês, as caixas seguem rumo à Polónia, na esperança de que o gesto solidário dos habitantes do distrito, sobretudo de Setúbal, Palmela, Pinhal Novo e Alcochete possa aconchegar os corações sofridos dos muitos ucranianos que, confrontados com a invasão russa, tiveram que fugir para um país vizinho e continuar a acreditar ser possível viver em paz no futuro.

Parafraseando uma das declarações do padre Constantino Alves ao nosso jornal: “Isto dá-nos um espírito de confiança em dizer que há mais bondade no mundo do que maldade, porque, caso contrário, o mundo estava destruído. Estes acontecimentos tão trágicos, tão cruéis e tão criminosos que causam tanto sofrimento, como dizia uma senhora ucraniana ‘para trás só ficam lágrimas de sangue’”.