Um comentário ‘soprado’ sobre o Lobo com pele de cordeiro

Não é a primeira vez que o primeiro ministro, Luís Montenegro, do alto das suas meias palavras, lança atoardas que geram confusão e balbúrdia. Desta vez, ao acusar os jornalistas de lhe fazerem “perguntas sopradas”, foi longe de mais, sobretudo porque criou um anátema sobre toda a classe.

Tratou-se de um ataque sem precedentes ao jornalismo português que não pode ficar assim à espuma dos dias, porque as palavras do governante dizem bem das ideias que tem sobre o setor.

Montenegro não só acha que os jornalistas andam de auricular ou visionam os telemóveis nas suas conferências de imprensa em busca de “perguntas pré-determinadas”, eventualmente “sopradas” do Largo do Rato, como já fez saber que anseia por um jornalismo “tranquilo”, “menos ofegante” e, digo eu, sem perguntas incómodas.

Mais, na soberba que aparenta estar a ganhar, o primeiro ministro tenta desacreditar e silenciar o jornalismo plural e desfere um inequívoco ataque à liberdade de imprensa. É muito grave, para o jornalismo e para a democracia.

O pior é que desferiu estes dislates num momento em que se aprestava para apresentar medidas de apoio para o setor, como que a dizer ‘cuidado, estou a dar sob condições’. E vai dar! Nomeadamente os dezasseis milhões que vale a carteira de publicidade da RTP – estação pública de televisão – que desta forma ficam mais ou menos disponíveis para engordar as suas congéneres privadas, atualmente carregadas de muito lixo televisivo, a começar pelo fluxo vertiginoso de programas de comentário político a soldo, a que se juntam os magotes de telenovelas (que alheam o público) e de reality shows ou surreal life.

E depois, no day-after, para fechar em grande, foi à SIC entrevistar-se a si próprio, qual espaço de campanha eleitoral, coa-adjuvado por uma pseudojornalista, conhecida por ser uma das mais indefetíveis personagens públicas dos sociais-democratas que, ao que parece, nem carteira profissional detém neste momento.

É muito para um líder de Governo que pretende impor uma imagem moderada, empenhada em juntar os portugueses e impulsionar reformas.

Para já são medidas, atrás de medidas, sem rumo nem estratégia, vislumbrando-se, à boca do túnel, um perfil presunçoso, arrogante, a roçar o autoritário.

É por estas e por outras que faz sentido trazer à coação a fábula ‘do lobo com pele de cordeiro’, a lembrar a parábola de Jesus “Cuidado com os falsos profetas, que vêm atrás de nós vestidos como ovelhas, mas, interiormente, são lobos devoradores”.