BE percorreu com firmeza e palavras todas as esquinas dos concelhos

Apesar das quedas eleitorais, o Bloco mantém-se firme na luta por mais representação e promete “resistir” com a mesma determinação de 2024.

“Mudar de vida” Foi com esta frase que a campanha do Bloco de Esquerda foi andando pelo distrito como quem conhece bem os caminhos. Em Sines, entre o cheiro a sal e o peso da indústria, em Almada e no Seixal, onde há uma cidade que vai mudando de cor e outra que continua agarrado à sua tradição política, e também no Montijo, no Pinhal Novo e por outras freguesias, a conversa fez-se de perto, porta a porta, com panfletos na mão e ouvidos bem abertos. Esteve em mercados como o da Xepa e na Autoeuropa, em contacto com os profissionais que movem a economia.

O périplo do partido para conquistar eleitores nestas legislativas teve início no coração de Almada, um concelho onde a política tem mudado. Não foi preciso andar muito para perceber que a chama do BE continua acesa e longe do eventual declínio que muitos apressadamente anunciam. Dentro do pavilhão da Sociedade Filarmónica Incrível Almadense havia bandeiras no ar, que “dançavam” ao ritmo dos cânticos . Os jovens, conhecidos por ser os verdadeiros rostos do partido, viveram com entusiasmo aquilo que foi a abertura de uma campanha que se espera resultar em mais votos que no ano passado. Muitos já conhecidos por fazerem da militância um espaço de criação e comunidade, outros talvez chegados pela primeira vez, olhavam curiosos de bandeiras nas mãos. Foram eles que gritaram mais alto, que vibraram com as palavras e que, no fim, se aproximaram com uma timidez alegre das irmãs Mortágua, pedindo fotografias, trocando palavras breves e admiração. Com telemóveis na mão e orgulho no peito, pareciam carregar não só imagens para publicar nas redes sociais, mas também a vontade de fazer com que a campanha fosse para lá daquele momento e a esperança de um Portugal melhor para todos.

Quando Joana Mortágua disse que “não há conquista de direitos das mulheres sem o direito à habitação”, o silêncio instalou-se por um breve instante, como se todos precisassem de absorver o peso da frase, e logo depois, o pavilhão encheu- -se de aplausos. Era um momento simbólico e cheio de força para os militantes haver seis mulheres de esquerda em palco, a abrir uma campanha que, mesmo antes das promessas, já mostrava quem queria representar.

Arruadas e contatos diretos com populações

O Seixal acabou por ser também um palco importante para a campanha de Joana Mortágua como cabeça de lista do círculo eleitoral de Setúbal. Com arruadas junto à baía, a interação direta com a população foi sentida. Poder-se-ia esperar algum desconforto ou até rejeição de quem não se revê nas ideias do Bloco, mas tudo correu sem sobressaltos. As arruadas, embora discretas, levaram os panfletos da caravana até às mãos de quem desfrutava do calor improvável de maio, sentado em esplanadas cheias de conversa e sol. No meio da tranquilidade seixalense, Joana Mortágua caminhava com naturalidade, trocando palavras, sorrisos e apertos de mão. Houve quem recusasse, mas sempre com um aceno educado e respeitador.

Outro ponto alto foi a visita à Universidade Sénior do Seixal, um encontro entre gerações que reafirmou o compromisso do partido com a valorização de quem tem mais de 65 anos. Mariana Mortágua rodeada de jornalistas e dos alunos da universidade disse que o partido “está aqui para enfrentar a extrema direita” e para “trazer todas as gerações para esta luta”. Enquanto as irmãs Mortágua tomavam café e trocavam sorrisos com a funcionária do bar, o corredor principal da Universidade encheu-se-se de murmúrios cheios de significado. “Eu sou simpatizante do partido”, disse uma senhora com a leveza de quem se sente em casa e com a firmeza de quem sabe o que defende. Noutro momento, ouviram-se desabafos como “isto tem que mudar”, uma frase solta entre possíveis dúvidas sobre quem votar no dia 18 de maio e a esperança de um país que possa virar a página.

A campanha bloquista fez-se assim, com passos firmes, conversa direta e olhos nos olhos, num Setúbal vivido de perto, esquina a esquina. E o que foi visível, ao longo destes dias, é que talvez o BE não esteja a perder tanta força como muitos disseram desde 2022. As pessoas ainda se abrem ao partido, ouvem, conversam, acreditam que dali podem vir soluções para o país, mas sobretudo para o distrito. Antes do fim, ainda há caminho: o partido de esquerda leva a proposta de integrar a travessia Setúbal Troia no passe Navegante, um gesto de compromisso com quem vive e trabalha nesta margem do Tejo. Seguem-se encontros com populações como a de Sesimbra, e por fim, o encerramento da campanha, na cidade do Sado, onde esta viagem termina como começou: com proximidade.