“Maio maduro Maio, quem te pintou?”
Portugal onde nasci, o mesmo que celebrou Abril com cravos e promessas de Liberdade, o teu povo votou em quem recusa tudo o que Abril nos deu.
O que aconteceu com a nossa memória coletiva!
Os nossos avós e pais lutaram por um país sem medo, sem censura, sem ódio ofi cializado!
Sinto-me sinceramente frustrado, como o meu país Renovado na madrugada e que as portas de Abril abriu, tivesse trocado a alma por um grito de raiva mal direccionado.
Contudo, é preciso acreditar e denunciar os muros e as ameias, que afrontam a luta e honrar todos aqueles – Homens e Mulheres – que por ti lutaram Portugal, e pagaram com a própria vida nos cárceres de um regime totalitário.
“Quem te quebrou o encanto, nunca te amou.”
Não quero fi ngir que está tudo bem. Não está. Não quando o preconceito é disfarçado de “opinião” e a crueldade se normaliza no discurso público. Não quando vejo jovens repetir ideias que cheiram a mofo, como se tivessem nascido num país que nunca conheceu Abril.
Contudo, não podemos ficar indiferentes a um “cancro” galopante, motivado por um vírus sorrateiro e malicioso de um fascismo travestizado sob um populismo ignóbil, assente na retórica do medo e do ódio.
Estes arautos, rasos de empatia e decência, exaltam à exclusão, à discriminação e ao feroz individualismo desumano.
Para eles não existe as palavras solidariedade, fraternidade e justiça social.
Nós os defensores das conquistas de Abril, sentimos na pele a dor cuja mágoa nos faz sedimentar e endurecer a luta, convictos que não vale a pena “embalar a trouxa e zarpar”, mas sim “vir para a rua gritar”.
É preciso acreditar e denunciar os muros e as ameias, que afrontam a luta e honrar aqueles que lutaram e pagaram com a própria vida nos cárceres de um regime totalitário.
Só há um enquadramento que urge refl ectir: isto é uma luta pela alma das pessoas! Enquanto não meterem isto na vossa perspectiva, estão a lutar contra espadas com palitos de fósforos.
É duro e triste vermos o nosso povo que insiste em não aprender com o seu próprio passado.
Cabe a nós, que vivemos nesse Portugal com amarras e amordaçado, lutarmos até que as forças nos deixem, e entoar ao vento que passa: “que em tempo de servidão, há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não”, mais ainda: “não há machado, que corte a raiz ao pensamento”.
Artur Vaz – Escritor



