Não vale a pena chorar sobre leite derramado. O hemiciclo mudou e isso é um refl exo do país, de quem somos, do que fomos deixando acontecer, do que fi zemos acontecer. Entre o choque, a apreensão e a revolta, mas também a celebração e a esperança, tenho lido inúmeras reacções a esta nova confi guração. Há pelo menos um aspecto positivo: uma consciencialização de que é preciso começarmos mesmo a falar de política, nomeadamente com os mais jovens.
A memória que tenho da minha juventude, no que à política diz respeito, é de que estava muito distante da minha realidade quotidiana. Tirando as tentativas de mobilização por parte de uma ou outra juventude partidária, não parecia existir um esforço deliberado no sentido de incentivar a literacia política, o conhecimento de direitos e deveres, a divulgação do funcionamento dos órgãos representativos e, com tudo isto, estimular a participação. Não creio que o meu caso seja excepcional. A minha educação para a política começou a dar-se por ter tido o privilégio de conhecer algumas pessoas que me transmitiram, de forma apaixonada, como diferentes formas de pensar tinham consequências directas no nosso quotidiano. E que, mesmo apenas enquanto cidadãos e eleitores, podíamos infl uenciar de forma decisiva o futuro. Foi um processo lento, acompanhado por muita fruição cultural, pois não consigo dissociar a consciência política da que surge através do conhecimento.
É a este ponto que quero chegar: a consciência política não existe por si, ou seja, não pode haver verdadeira consciência política sem mundividência. Votar num partido ou em determinada pessoa pode acontecer sem qualquer tipo de consciência política, o que, aliás, qualquer político (e partido) sabe muitíssimo bem. Ao ter existido, ao longo de meio século, pouco investimento em áreas como a cultura, o que se fez foi, de forma deliberada ou involuntária, incentivar o voto inconsciente, o voto enquanto reacção primária a acções ou palavras eleitoralistas. Não é por acaso que nos anos de eleições autárquicas se apressam inaugurações, engordam orçamentos de festas populares, ou se fazem operações cosméticas de última hora. Ou, para falar também de oposições, se desencantam documentos incriminatórios, publicam notícias falsas, entre outras estratégias de descredibilização.
Ora, nada disto é, ou alguma vez foi, um estímulo à consciência política, muito pelo contrário. Portanto: será assim tão surpreendente o que se passou nestas últimas eleições legislativas, ou apenas o resultado expectável do sucessivo adiamento da difícil e impopular decisão de apostar na cultura (e na educação), enquanto motor de consciencialização individual e colectiva? Não vale a pena chorar sobre leite derramado. Se queremos uma verdadeira mudança, se acreditamos na liberdade e que, para mantê-la, é preciso existir uma consciência colectiva de que a podemos perder, o único caminho possível é identifi car as causas do que nos trouxe aqui e, sem facilitismo, pressa ou demagogia, enfrentá-las.
Levi Martins – diretor da Companhia Mascarenhas-Martins



