O crescimento do Chega não é um acidente, não é mesmo! Nem se trata de um simples “acordar do povo”. É, antes, na minha opinião, o resultado direto de um país a perder lentamente a noção do que significa viver em democracia e, de certa forma, da inversão da decência e da ética republicana.
Na verdade, nos últimos poucos anos, andámos a alimentar o monstro, com algum silêncio, muita distração e uma enorme cumplicidade. Deixámo-lo andar por aí, a congeminar, a criar um exército gordo e a formatar grupos de pertença, como se se tratasse de um clube de futebol ou, mal comparado, de uma espécie de seita.
É fácil, hoje, perante a hecatombe, apontar o dedo ao Ventura, aos seus discursos inflamados e concentrar tudo no descontentamento das pessoas. Essa análise é muito preguiçosa, porque a verdade é mais desconfortável.
A começar no âmago da nação, muito agarrada a um conservadorismo sacrossanto que vem de longe, à direita e à esquerda, comodista e inerte às grandes mudanças ou ruturas. Este é o nosso país, e parte dele tem sido acordado agora por este movimento destrutivo, sem ideologia, sem valores ou, pior que isso, sem filtro à procura do eterno D. Sebastião.
O Chega não cresce porque tem ideias melhores, antes pelo contrário. Nem pelas soluções que apresenta para combater os problemas da Saúde, da Educação, da Habitação ou da Justiça. Cresce porque a maior parte de nós já não quer saber de ideias e porque o debate político foi substituído por gritaria nas redes sociais, por memes, por indignações instantâneas que duram menos que uma story no Instagram. Cresce porque lhe deram uma bandeira, uma causa e uma meta, mesmo que essa meta seja destruir tudo o que conquistámos desde a queda da ditadura. Para muitos o salazarismo está vivo. E muitos acreditam que é a grande solução, porque a democracia não resolve.
Há tempos li um post que rezava assim: “Vivemos numa era onde o caos rende. E há quem o saiba explorar. O Chega faz da confusão o seu campo de batalha. Enquanto os partidos tradicionais se esforçam (mal ou bem) por apresentar propostas e manter alguma compostura democrática, Ventura e os seus seguidores gritam, insultam, provocam. E isso, infelizmente, é ouro nos tempos da viralidade”. Concordo!.
Em larga medida, no tempos que correm, o eleitorado faz tábua rasa dos valores, da ética, da decência mínima. Vota por chamamento, por cansaço e até por gozo ou prazer, como se o voto fosse a arma avançada de uma guerra contra os socialistas, contra as minorias, contra o país corrupto, contra os imigrantes, contra tudo e contra todos, e não uma escolha com consequências reais para o futuro de todos.
Este revés para os valores democráticos, para a ética na política ou para a solidez das ideias é alarmante. O gesto de construção que o voto permite, transforma-se na negação do sistema, dos partidos tradicionais e da moderação. É neste lógica destrutiva que o Chega galga terreno, não pela confiança que inspira, mas pelo vazio que vai capitalizando.
Não sei bem quais as soluções para inverter este caminho, e receio que ao Ventura se vão juntando – à boleia de ganhos de poder – outros ‘venturas’ ainda mais perigosos, gente da direita antiga, conservadora e ainda mais nacionalistas no pior dos sentidos.
A equação é dura. Os partidos democráticos têm que combater o populismo do Chega sem o amplificar. E devem, não sei bem como, reconstruir a confiança dos cidadãos num tempo em que os algoritmos favorecem o extremismo e a simplificação, onde a seiva da Internet ameaça estupidificar os mais jovens, cujas referências perniciosas estão à mão de um clic, chamados que são a esta luta pela desordem. Por isso é preciso reabilitar o debate público, reforçar o jornalismo sério, investir na literacia mediática e renovar o vínculo ético entre eleitos e eleitores.
Mais do que um desafio político, é um combate cultural, que deve combater a manipulação e desinformação, porque perder essa batalha seria abdicar de uma democracia plural e racional, substituindo-a por um palco de ressentimentos e slogans.
A resposta não pode ser mais do mesmo. Não se combate um discurso de rutura com apelos ao “bom senso” vindos de políticos desacreditados. É preciso refundar a ligação entre quem governa e quem é governado. Apostar na transparência, na verdade, na pedagogia democrática – mesmo quando isso parece dar poucos votos. Mais do que nunca, é urgente voltar a ter coragem política e moral. Porque se não enfrentarmos o populismo com frontalidade e clareza, ele não só continuará a crescer como nos engolirá a todos.



