Como eu vejo as eleições autárquicas 2025 na minha cidade. Uma vitória do PCP encapotada em Setúbal?

Na contagem decrescente para as próximas eleições autárquicas, Setúbal vive um clima de expectativa que, no meu entendimento, encobre uma realidade que poucos parecem querer admitir.

É quase um segredo à vista de todos, a vitória do PCP nas próximas eleições é uma certeza que, para muitos, pode ser difícil de aceitar. Mas quem conhece o terreno, e eu conheço-o bem, sabe que a Câmara Municipal de Setúbal está a caminhar, passo a passo, para uma nova (mas não tão nova assim) era sob a batuta da CDU. Vejam os apoiantes da Dores Meira

Quando me candidatei nas eleições de 2021, tive a convicção de que, independentemente de quem fosse o candidato, a vitória do PCP parecia uma inevitabilidade. E assim se confirmaram as minhas suspeitas, André Martins, emergindo da ala dos verdes, conseguiu a importantíssima vitória, mesmo que a maioria absoluta lhe tenha escapado, situação que o PCP nunca lhe perdoou. Contudo, a verdade é que a Câmara tinha, na sua totalidade, a cor vermelha.

Contudo, a realidade da governação não se revelou tão promissora quanto a vitória eleitoral poderia sugerir. Afinal, o que se viu durante a administração de André Martins?

Uma cidade a braços com a sujidade, problemas estruturais à vista e obras a meio gás, estacionamento tarifado por 40 anos, transportes públicos bastante deficientes.

Setúbal pareceu paralisar, como se o tempo tivesse decidido passar sem levar consigo os anseios dos seus cidadãos. A estagnação foi visível, e isso deixou espaço para que a oposição começasse a almejar a vitória nas eleições autárquicas de 2025, um objetivo que muitos pensavam possível.

Entretanto, surge a intrigante hipótese da CDU manter-se no poder de forma encapotada. O que se desenha é um cenário em que Dores Meira surge como protagonista, mas não sem complicações. A sua questão não é só uma candidatura isolada, mas sim uma estratégia pensada para conquistar um eleitorado descontente, colocando-a como a alternativa ideal para aqueles que desejam penalizar a CDU, mas que, por questões pragmáticas, não consomem um voto a favor do “voto útil”.

O que me preocupa, e que não posso deixar de expressar, é a facilidade com que se manipula o discurso político. Tive a oportunidade de estar próximo de familiares que, no tempo da outra senhora, viveram as agruras dos tempos de prisão e opressão. Aqueles que têm uma história ligada ao comunismo, que nasceram e cresceram com ideais profundamente enraizados, não conseguem simplesmente rasgar um cartão e mudar de bandeira. Para muitos, a filiação política não é um mero detalhe administrativo, mas sim uma parte indissociável da sua identidade.

Aprofundando a análise, prevejo uma Câmara Municipal fragmentada, com vereadores distribuídos entre Dores Meira, PS, CDU, PSD e até Chega. 3 deputados Dores Meira 3 deputados PS 3 deputados CDU 1 deputado PSD 1 deputados Chega

Um verdadeiro xadrez político que, a meu ver, está a ser manipulado para garantir que, de uma forma ou de outra, o PCP mantenha a sua influência nas decisões locais. André Martins, que terá de lidar com a sua recente derrota, acabará por sair de cena, mas os seus “colegas” de partido (Nuno Costa, Carla Guerreiro e Pedro Pina) poderão muito bem ser os porta-vozes de uma maior parte da mesma agenda que o PCP sempre defendeu, e que já trabalharam todos e segundo a Dores Meira trabalharam bem com ela.

No fim das contas, será que esta leitura pessimista terá fundamento?

Não sou eu a querer desiludir quem acredita que o bipartidarismo local pode trazer mudanças positivas, mas só aqueles que não querem ver concedem que a CDU poderá ainda estar nos bastidores, à espera da grande chance de uma nova vitória encapotada.

A realidade é que Setúbal parece estar a rumar para um ciclo que não se encerrou, mas que, pelo contrário, se prolonga de forma disfarçada, enquanto a cidade dos nossos sonhos continua a lutar contra a sua própria imobilidade.

Assim, mantenho a minha convicção, queremos uma mudança real, mas será ela possível quando as regras do jogo continuam a beneficiar aqueles que, por baixo da superfície, continuam a manobrar os cordéis do poder?

Sempre disse que o Poder cega, e existem pessoas que usam todas as estratégias para continuarem a sentirem o poder, como se a vida se baseasse só disso.

O tempo o dirá, mas até lá, a verdade prevalece para quem tem olhos para ver.

Carlos Cardoso – Gestor