A recente intervenção do partido Chega na Assembleia da República, onde foram explicitamente referidos nomes de crianças em contexto escolar, constitui um ponto particularmente grave na degradação do discurso politico no nosso país. Ao instrumentalizar menores em sede parlamentar para efeitos de combate ideológico, ultrapassou-se uma fronteira ética elementar: a de que as crianças devem ser protegidas, não exploradas.
Este episódio, que por si só já justificaria um repúdio firme por parte de todas as forças democráticas, não surgiu num vazio. É antes uma tendência crescente de manipulação e propagação de falsidades. É um meio pernicioso e mesmo aviltante, useiro e vezeiro por parte de políticos sem escrúpulos.
Entre muitos outros exemplos que têm invadido o espaço público e contagiado uma boa parte dos portugueses, há aquela imagem de crianças muçulmanas apresentada como sendo de uma escola em Portugal, mas que era falsa e não correspondia a nenhuma instituição nacional. Confrontado numa estação de televisão, o autor da publicação, deputado do Chega, sempre de bem com a mentira, ainda atirou ao jornalista: “Mas tem dúvidas de que isto existe nas nossas escolas”. A verdade, é que esse ‘post’ foi replicado milhares de vezes, alimentando estigmas e promovendo uma ideia de “invasão cultural” que não corresponde à realidade.
Estes fenómenos não são apenas lamentáveis. São perigosos. E tornam-se mais preocupantes quando protagonizados por representantes eleitos, com acesso privilegiado à tribuna democrática e à legitimidade que daí advém. Quando a mentira é proferida sob a cobertura da imunidade parlamentar, e quando imagens falsas são utilizadas como prova em julgamentos públicos improvisados nas redes sociais, estamos perante um ambiente tóxico que corrói os fundamentos da convivência democrática.
Num tempo em que a desinformação circula com velocidade e os factos parecem cada vez mais negociáveis, é preciso contrariar, sem hesitação, estas narrativas alimentadas por gente que não olha a meios para atingir os seus objetivos mais sórdidos. Para os democratas, a verdade não pode ser um detalhe dispensável, mas sim a sua espinha dorsal. E a infância não é, nem pode ser, campo de batalha política.



