Volto ao tema das perceções dando conta do último relatório do Observatório de Segurança e Defesa (SEDES) segundo o qual a a criminalidade em Portugal diminuiu 1,3% nos últimos 25 anos. No mesmo período, a cobertura mediática de crimes aumentou 130%. Estes dados, que neste mais recente momento da nossa vida coletiva têm sido exponenciados, não podiam ser mais claros e o contraste ainda mais gritante.
O estudo analisou as capas dos cinco principais jornais nacionais e revela um fenómeno que, não raramente, estamos a normalizar. A dicotomia parece ser esta: Estamos a viver mais seguros, mas a sentirnos mais inseguros. E este é que é o perigo, numa narrativa alimentada por políticos e pela bolha mediática. Neste caldo, que está a toldar a realidade, o populismo e, no caso da comunicação social, o sensacionalismo, reforçam a ideia de que o perigo espreita a cada esquina. E os imigrantes são o alvo privilegiado.
Não se trata de negar a importância de noticiar crimes, que é agora transversal a toda a media, mesma a dita de referência, mas quando a exposição se torna desproporcional e persistente, alimenta-se um sentimento coletivo de medo que pouco ou nada corresponde à realidade estatística.
As redes sociais, com a sua velocidade e falta de filtro, agravam e amplificam este fenómeno. Um crime isolado, replicado em centenas de partilhas e comentários, ganha dimensão de epidemia, a narrativa política acompanha e faz-se ecoar nas massas, e assim, a informação perde contexto, com a emoção a substitui a razão.
A SEDES propõe soluções concretas: a realização de inquéritos de vitimização, capazes de captar experiências de crime não denunciadas, e uma comunicação mais eficaz por parte das forças de segurança e da magistratura. Medidas que visam não apenas informar, mas esclarecer, restaurando a confiança dos cidadãos.
O desafio é grande. Informar é necessário, mas alarmar não pode ser o objetivo e contraria, mesmo, a responsabilidade dos jornalistas.
Se queremos uma sociedade realmente segura, temos de começar por exigir mais verdade na forma como a segurança nos é comunicada. Porque viver com medo, quando os dados mostram que temos menos razões para isso, é desperdiçar o progresso que já alcançámos.



