Javalis nas localidades constituem perigo real para a saúde pública

Até 2032 prevê-se que se matem entre 20 a 30 por cento dos exemplares existentes, mas isso poderá não ser suficiente para travar o avanço de uma espécie que não tem predadores naturais na região e que todos os anos é responsável por dezenas de acidentes de viação.

Os avistamentos são diários Os javalis tornaram-se parte integrante do quotidiano de várias localidades da península de Setúbal. Circulam por ruas e jardins, atravessam-se nas estradas, vão às praias, às hortas e aos caixotes de lixo. Perante as interrogações recentes, que colocam a possibilidade de os animais estarem a reproduzir-se de modo incontrolável, o Semmais informou-se junto do Instituto de Conservação das Florestas e Natureza (ICN) sobre o ponto da situação. “Expectável” e sem “descontrolo” foi como a situação foi descrita. Restam, contudo, as conclusões do Plano Estratégico de Ação do Javali em Portugal, documento divulgado há menos de três anos e que deixa vários sinais de alarme, entre eles o facto de esta espécie que agora priva diariamente com os humanos, ser “um reservatório de doenças zoonóticas”.

Doenças zoonóticas são aquelas que podem ser transmitidas aos humanos pelos animais estando identificadas em todo o mundo mais de 200. Entre a extensa lista contam-se a brucelose, o dengue, a doença das chagas, a larva cutânea, a leishmaniose, a toxoplasmose e a raiva, sendo que esta até pode ser mortal. A conclusão foi apurada pelos especialistas do Departamento de Biologia da Universidade de Aveiro e do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar do mesmo estabelecimento que contribuíram para a elaboração do documento que traçou a situação dos javalis em 15 áreas piloto, entre setembro de 2020 e dezembro de 2022. Uma das áreas em questão é o Parque Natural da Arrábida. Também o alastramento da peste suína africana através dos javalis é abordado como uma ocorrência óbvia.

“Representam perigo para a saúde pública” diz ainda o documento, salientando que a transmissão das referidas doenças, com potencial risco de disseminação por parte dos javalis, pode ocorrer através de bactérias, fungos ou vírus, podendo facilmente infestar humanos seja através de picadas, arranhões, saliva, sangue ou urina.

Ao nosso jornal o ICNF respondeu que “não existem dados absolutos sobre a dimensão das populações de animais selvagens, trabalhando-se por isso com base estimativas”. Os técnicos referem, no entanto, que as ações de controlo das espécies (neste caso dos javalis) se realizam periodicamente. “No Parque Natural da Arrábida e áreas limítrofes são abatidos anualmente entre 400 e 600 javalis”, mantendo-se a população numerosa mas estável”. Para este ano, ainda de acordo com a mesma entidade, já foram autorizados “499 selos para esse efeito”, ou seja, já foram autorizadas quase cinco centenas de mortes de javalis.

A nível nacional, de acordo com as estimativas do Plano Estratégico de Ação do Javali em Portugal, existiriam em todo o território, em 2022 cerca de 277.385 animais (a oscilação foi calculada entre os 163.157 e os 391.612). Estes valores foram obtidos com base em vigilâncias e fotografias realizadas nas herdades que serviram de piloto ao estudo.

30 por cento das extrações podem não chegar

Os estudos realizados desde 2020 e concluídos dois anos depois apontam para a necessidade de, num período que pode oscilar entre os cinco e os dez anos (2027 a 2032) abater entre 20 a 30 por cento dos javalis existentes no país. Essa percentagem é igualmente válida para o efetivo existente no Parque Natural da Arrábida assim como para o do Parque do Sudoeste Alentejano.

As razões avançadas para as percentagens de mortes (extrações) previstas são “os riscos para as pessoas e bens, as implicações em matéria de saúde pública e os impactos negativos sobre habitats, espécies e equilíbrio dos ecossistemas”.

“O javali é uma espécie cinegética oportunista e omnívora. Não tendo praticamente predadores naturais, a sua presença no território (da Arrábida) deve ser controlada”, adiantam ao nosso jornal os peritos do ICNF. Para isso aquele organismo refere que tem “procurado responder com a maior celeridade possível aos pedidos de correção de densidade populacional, promovendo também ações com zonas de caça, agricultores ou outras entidades”.

Mas, se o ICNF diz que a morte anual de 20 a 30 por cento dos animais pode ser decisiva para o controlo das populações, os estudos dos especialistas da Universidade de Aveiro não são tão assertivos. Considerando que os dez por cento de abates que se verificavam em várias regiões até 2022, aqueles responsáveis afirmam também que “20 a 30 por cento podem não ser suficientes”. Além disso, referem que uma já aludida campanha de relocalização dos animais também não é uma solução válida, garantindo que essa experiência já foi efetuada, com resultados negativos, noutros países: Acabaram sempre por regressar aos locais onde antes se alimentavam.

A relocalização, que também já foi sugerida para os javalis que agora percorrem as praias da Arrábida e algumas ruas de Setúbal, parece então ser uma solução descartada. “O ICNF não tem competência para autorizar o abate de javalis em áreas urbanas, por estarem em causa questões de segurança pública. Nestes casos compete às forças de segurança, no âmbito das suas atribuições, assegurar a proteção de pessoas e bens e atuar sempre que se justifique o controlo da presença da espécie nesses contextos”, referem os especialistas do organismo estatal.

Refira-se que não existem dados relativos a prejuízos que os animais tenham causado em terrenos agrícolas da península de Setúbal. Apesar de muitos relatos, a verdade é que não são conhecidos casos de gravidade extrema. Em Azeitão, que devido à sua localização será uma das zonas preferidas da espécie, segundo disse à nossa reportagem a presidente da junta de Freguesia, Sónia Paulo, “apenas se registou uma participação de um residente devido a prejuízos causados pelos javalis”. “Esse episódio único ocorreu no ano passado, na aldeia de Irmãos e Oleiros”, avança.

Por fim, no que se refere à intervenção destes animais em acidentes de viação (apontados igualmente como uma fonte de prejuízos) o Centro de Estudos do Ambiente e do Mar da Universidade de Aveiro, socorrendo-se das estatísticas da GNR, refere que foram contabilizados 54 no distrito de Setúbal em 2019 (altura em que a região foi a segunda mais afetada em todo o país) e 33 um ano depois (sexto distrito a nível nacional). Nos dois anos em apreço contabilizaram-se 1.306 acidentes em todo o país causados por animais. Os javalis terão sido responsáveis por 83,7 por cento, enquanto veados e cervos intervieram, respetivamente, em 9 e 7,3 por cento dos sinistros.

Como impedir entradas nas localidades

Na impossibilidade de se poderem abater javalis dentro das localidades, os especialistas da Universidade de Aveiro entendem que uma das principais medidas a adotar é reduzir a disponibilidade de alimentos. Isso significa que, sobretudo junto dos estabelecimentos de restauração, se torna necessária a utilização de caixotes de lixo cuja abertura não seja possível. É igualmente sugerido que se evite a chegada dos javalis a locais onde se procede à alimentação de espécies domesticadas, sendo as colónias de gatos um dos exemplos frisados. Os estudos já realizados dizem, por fim, que os javalis se movimentam durante o dia nos matos e nas áreas florestais de árvores folhosas e pinheiros, assim como em praias, dunas, minas, pedreiras e lixeiras. As visitas às áreas mais urbanas ocorrem, maioritariamente, entre as 21h00 e as 3h00.